sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Ceia

Este é meu corpo, toma
e come de sua parte nesse pão, essa coisa bruta e pobre, pedra que se mastiga, pedra dura ressentida, toma e come e me salga as feridas, deixa a marca dos dentes, e engole com força, com lágrimas, come
de minha boca os choros, as cordas, um som de realejo, toma-me o peito que me bate feito sino e de tão
leve ninguém
escuta e arranca de minha boca o córrego, o mar, a nascente, as pedras na margem, toma
este é meu sangue, é de amor escorrido, riscado de mim, em cortes doídos, toma
até o fim, inteiro e agora,
o que me arrancaste, sem dó, com os dentes, no coração, amor,
agora bebe.

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