domingo, 22 de novembro de 2009

Sarau de ontem

1ª Etapa (Estabelecimento): bom

2ª Etapa (Tudão): bom pra kct

Façam o favor de inserir esse Matatias no grupo.
Com ele ninguém tem o trabalho de puxar conversa.
É só ficar enchendo os copos de cerveja e ouvindo o cara falar.

Abs

Paulo

Vita Nuova

Dante Alighieri

Tanto gentile e tanto onesta pare
la donna mia, quand'ella altrui saluta,
ch'ogne lingua devèn, tremando, muta,
e li occhi no l'ardiscon di guardare.

Ella si va, sentendosi laudare,
benignamente d'umiltà vestuta,
e par che sia una cosa venuta
da cielo in terra a miracol mostrare.

Mostrasi sì piacente a chi la mira
che dà per li occhi una dolcezza al core,
che 'ntender no la può chi no la prova;

e par che de la sua labbia si mova
un spirito soave pien d'amore,
che va dicendo a l'anima: Sospira.

Deve ser

provisório e imperfeito
de curta duração
como um suspiro dor no peito ou ataque
alarme falso do coração

espontâneo
como esquecer-se de
morrer
como quem desperta atravessa ou desata um limite

destino

aceno derradeiro
abraço em vocês
adeus.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Mais um voo!

Pássaros,

O próximo sarau será no dia 21/11, neste sábado, a partir das 20h30, no Bar Estabelecimento (Rua Monte Alegre, nº 160 - Serra).

Apareçam! Haverá revoada, terrorismos poéticos e coisas afins (com samba no meio)!

:)

À margem esquerda do rio

Dos rios se diz que são violentos. Fiquei com essa frase em mim o dia inteiro, a imagem das calhas dos olhos riscando o rosto. Mas ninguém diz violentas as margens que os comprimem. Isso me acompanhou: as pessoas que escrevem nosso rosto, cavando-nos entrelinhas ao redor dos olhos, para o que escorrerá depois. É bonito pensar nas pessoas como uma parte do nosso rosto, as pessoas que nos deixaram sulcos. Pensar no rosto como um mapa que talvez elas nunca nem leiam, nunca apontem o lugar onde está encondido o tesouro, o lugar de tudo que para sempre brilha, e o da sombra mais fria. É bonito olhar forte para um rosto devastado, até abri-lo um pouco, e ler. Feito beber o que escorre. Como os animais pequenos quando aparecem para beber nos regatos, depois de verem partir as grandes feras.


[em itálico, frases de Bertolt Brecht]

Lições

Empurrar uma lança verde
através do caule seco
empurrar bem no centro
na carne
do botão
dentro
empurrar forte
sem piedade
a partir das raízes secas
do barro
do escuro
do mais escuro
de dentro
empurrar sempre
até que a seiva espessa
o botão
em carne
toda
toda a luz
deste lado te despedacem
flor.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009


porque estás seca como la paja seca

y no das fruto.


porque cada dia morre pequeno, morre assim em meus braços, morrem o dia, os planos para o dia, para a vida, porque cada querer amarga e deixa na boca um travo e um gosto de ontem, de nunca, e nós mentimos, mentimos e fingimos para não morrer, para não matar, deixo cair a máscara e a obrigação e o código, eu não me importo, me deixem quieta, não me apareçam sorridentes, não me resgatem, eu não quero e muito menos vou. a partir de agora estou abolindo o pacto: meu amor e meu cuidado para nada, a porta está fechada, não estou para ninguém.



* Javier Sabines. gracias, Leísa.

preços


veja, por exemplo, o cuidado: veja o zelo com que eles deitam a boca uns sobre as feridas dos outros, como nos rituais, como quando os santos descem para o chão, para o barro, veja como eles cravam os dentes nas pontas dos dedos uns dos outros e arrancam ferpas, veja por exemplo como as mulheres fazem dos cabelos faixa e gaze para estancar o sangue e cobrir o corte, veja como os homens se arriscam a invalidez para salvar a honra, veja como as mães não dormem e os pais não choram, os filhos não ousam, os cães não mordem, os pássaros não fogem, os peixes de aquário ficam eternamente se fazendo de imbecis

e todo mundo diz tudo bem, eu sei, é assim, mas eu te amo e não custa, e não pesa, digo, claro que pesa, claro que morro, claro que meu peito arrebenta e o sangue engrossa, mas e daí, você é aquele mar que me invade e me alegrou tantas tardes e férias e e e, você meu amor que vivi com e pelo corpo ou não, claro que me disponibilizo e escuto e me dê aqui seus pés e seu cansaço e darei um jeito, claro que cuido, que te amparo, não peço de volta nem espero retorno e tudo bem, eu sei que é assim, todas as vezes eu morrendo e do outro lado do vidro não me escuta ninguém. abaixo a cabeça abro as pernas: pago assim o amor que eu dei.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Foi sem sorriso, que ela bateu com força as asas que não tinha. E quis que, de repente, o chão se abrisse e cortasse a mesa, o bar, o maço de cigarros, o cinzeiro. Tudo ao meio. E arrastasse toda aquela metade de mundo a sua frente para longe. Desejou que essa fenda afastasse a mão que procurava seus cabelos. O sorriso ensaiado a sua frente. O cheiro ácido de cada desculpa. As justificativas nulas.


Foi sem nenhuma força que disse baixo: tudo bem, não. Tudo bem o caralho.

E passou a mão nos olhos secos sem nenhum orgulho do que sentia. Se deixou doer. Tinha que doer. Tinha de ser com raiva sob as unhas. Nunca é de outra maneira.

Olhou em volta para ver se tudo e todos haviam sido consumidos pelo que sentia. Mas todos ainda estavam lá. Ela ainda estava lá. Tirou o anel do dedo esquerdo e o engoliu. A seco.


#Espelho do espelho do espelho. Duelo poético número sete.

Âmbito

Limitar o espaço do quarto
ao essencial de uma lâmpada sobre a cama
de uma janela sobre a mesa
de um caderno
sobre o pensamento
em branco.

(janela para as estrelas
luz para os pesadelos
caderno contra os modelos)

Limitar o tempo no quarto sobre a cama
entre o espaço de dois sonhos
dente-de-leão, mulher com painas
extensão que se alonga sobre a paisagem vasta desta tarde branda.

(paisagem como modelo
mulher para as estrelas
paina para os pesadelos )

Limitar o tempo no quarto sobre a mesa
entre a medida imprecisa do universo
palavras lançadas sobre ela
na constelação mínima de um verso.

(mesa como modelo
palavras para as estrelas
versos contra o pesadelo)

Limitar o tempo no quarto sobre o pensamento
em branco, a essência fria
das esferas que deslizam como setas
em direção ao mesmo rio em que
sempre o mesmo
em si
me esqueço
solidão, recife, estrela.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

a história do fim


seria do pranto a história
se o coração não fosse de osso se não tivesse se tornado osso, se não fosse feio e se ainda fosse capaz de milagres, se quisesse milagres bancos de praça histórias, se fosse capaz de votar a favor da espera daquele amor, o A-mor que os livros ensinam, ensinam e vendem e a gente compra acredita
essas bobagens de: meu peito bate junto ao teu os corpos fazem um e respiramos em um só e:
por toda a minha vida mesmo que o meu caminho seja triste pra você ou: eu sempre soube, nasci e você já predestinado mesmo do outro lado do mundo mesmo mudo para a língua que eu sei, que eu falo, que eu sou, minha pátria etc etc

enfim seria do pranto e deixaria a todos náufragos e nus e cegos
se o coração não tivesse se tornado osso, nem o ventre exausto, nem os olhos mortos nem os dois secos, os dois, os que se amaram e juraram e atravessaram mar e desertos, ida e volta
achando que o faziam juntos, inteiros, os dois egoístas, os dois idiotas, os dois, famintos, escrevendo cada um a seu jeito uma história de esmolas muito mais para aplacar o tédio do que para se livrar da dor.

então é a história do fim da cena, do fim da farsa. do Amor que não. a história do fim termina a seco, longe, muda e particular. a história do fim termina sem lágrimas; termina sal, escombros, areia. água é para os que vivem, e pranto para quem crê.


Heresias

[Texto-espelho do "soberanias" da Laura, logo aqui embaixo. A cena é a mesma, os personagens é que são outros ;)]



Foi sem sorriso, sem dar de ombros, foi sem armas, sem todo aquele gosto amargo, e foi unicamente porque assim seu homem não queria, foi assim, foi com as mãos espalmadas, sem resignação, que a mulher, essa mulher de raiva e ardor e de sempre preferir a guerra, e para melhor saber o céu e o rochedo, e melhor os receber, quebrando-se, foi-se com um rasgar das asas.


Foi sem sorrir, foi soltando as rédeas, que a mulher rugiu e urrou e quebrou o copo nas mãos, tudo bem, não!, e não se defendeu com sorrisos, nem cigarros, nem etiqueta, tudo bem o caralho!, e soltou sobre a mesa todos, todos os cavalos.


Foi feito um bicho ganindo, e foi porque ela quis, e ela quis lutar contra o mar, contra o barulho do mar, e sobrepor sua voz à voz do mar, e a mulher, essa mulher selvagem, e com toda a pureza dos selvagens, arrastou consigo o mar, com a fúria do mar, e foi unicamente porque seu homem teria ódio.


Foi para pousar acima do mar o seu grito, e fazer mais altos que o barulho do mar sua raiva e seu choro, que a mulher, essa mulher sem defesas, nem etiqueta, nem piedade, a mulher armada de seu peito apenas, e de todo mar lá dentro, e de seu grito mais alto que todo o mar, armada de todas as suas lágrimas, e do cheiro desse sal bem perto, que a mulher, essa mulher de amor, de ardor absoluto, preferiu lançar-se contra o rochedo, com as mãos espalmadas, e quebrou copos, derrubou pratos, cuspiu no seu homem, escarrou, mordeu, rasgou a camisa de seu homem, serviu seu homem ao garçom, e deixou o troco sobre a bandeja onde largara seu homem completamente despido, lançado ao mar, sem abrigo.


A mulher, essa mulher obscena atirou pedras contra o mar, e rugidos, lágrimas e gritos ela atirou, sem pudor, e fechou contra o mar todas as portas e janelas, a mulher, essa mulher sem perdão partiu todo o mar, partiu feito se parte um copo, com as mãos.


Foi sem todo aquele amargo, e completando as frases com não, nunca, nunca mais, adeus e fim, e chorando, que a mulher lançou-se contra o seu homem, no encontro da asa dos olhos arriscando o mar, contra o mar, e acima, além, onde nada serve de chão e tudo é céu e silêncio e branco, essa mulher foi além, foi porque sim, porque ela gosta assim


e vai de mãos abertas.

soberanias

foi com as mãos enfiadas nos bolsos, o peito a galope e dor que a mulher a galope sorriu tudo bem então e deu de ombros e inclinou levemente a cabeça para o lado, e sacou da bolsa seu maço de cigarros, e pediu ao garçon um isqueiro, fazendo questão de se demorar, fazendo questão de constranger, com o peito a galope a mulher a galope sorria amarga e completava as frases com enfim. enfim. enfim. enfim dito, enfim que por óbvio, enfim que nunca mais, e não chorava, e não gania, a mulher a galope finalmente livre

unicamente porque ele assim o quis.

Just singin' in the rain

Gearmd onder een
kleine paraplu;
de regen opgehouden.

Abraçados num
pequeno guarda-chuva;
chuva que parou.

[graças a Juliana]

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Do anseio do fim (quando o universo murmura)

tem algo preso na garganta
sem nenhuma pretensão santa
só uma explosão tanta
que vem vindo como trombeta
pronta a anunciar a vendeta
e findar todo esse planeta

Mais um voo!

Pássaros,

O próximo sarau será no dia 21/11, neste sábado, a partir das 20h30, no Bar Estabelecimento (Rua Monte Alegre, nº 160 - Serra).

Apareçam! Haverá revoada, terrorismos poéticos e coisas afins (com samba no meio)!

:)

O que diria Drummond...

O Carlos, da família Andrade
Da porta que o Everton bate?

"A porta constantemente aberta não conduz a parte alguma".

Da solidão da menina que é visita, da Juliana?

"A solidão gera inúmeros companheiros em nós mesmos".

E da paisagem do Eduardo?

"A paisagem vista em sonho reaparece na realidade, sem nos reconhecer".


[Foto disponível na wikipédia, de Jersey]

Bato na porta

É a volta


Os olhos percorrendo

Essa casa de esquina


Vazia


Onde há tanto espaço

Em cada quarto


Que ali muitas vezes


Me perdi


Ali

Existe um de mim

Menino


Com os olhos baixos

Olhando o chão

De uma paixão


Criança


Uma menina de tranças

Que roubou um beijo

De um garoto sem jeito


Há ali


Um de mim

Atirando pedras


Em um outro Eu

Culpado


Amarrado ao passado


Há um

Esperando a beira de si


Com o coração na mão

Por não saber a direção


Há um rezando

Em segredo


Enquanto outro lhe aponta o dedo

Rindo


Há um de mim sofrido

E outro louco


Um bicho solto

Caça


Uma criança


Que fugiu de um morto

Com meu rosto


Outro de mim

Com o rim exposto


Sangra


E em seu sangue

Um de mim


Sem cor


Planta uma flor na terra

Vermelha


E um de mim cego

Sob um telhado de céu


Canta com o chapéu a frente

Esperando uma moeda


Enquanto um outro

Serra a cela


Um Eu espera Ela


Na janela


E outro com a saudade curvando as costas

Vem me receber à porta


# texto espelho de: "Agora sou visita" que escrevi sem querer há quase dois anos. Agora fez sentido. hehehe

domingo, 15 de novembro de 2009

Agora sou visita

[Texto-espelho do poema do Everton:
"Tenho fome da distância
Para tentar me ver de longe

Reconhecendo
Meu próprio aceno" :)]



Agora sou visita. A mesa está posta, não sei quem me espera, quem virá, não importa. Agora sou visita de mim, daquela menina igual, só que triste, e sem ninguém. A que andava só de vermelho, só descalça, e gostava de pedrinhas, de gravetos, a que lia lia lia, comendo brigadeiro, a que andava só, aquela menina, eu sei,


ao amanhecer ela vai chorar,

ao pôr-do-sol ela vai chorar,


de noite não, e nunca mais irá à aula de balé, nunca mais brincará na enxurrada, não cortará os dedos na roseira, aquela menina será a mesma tristeza, a mesma, e me visita. Agora sou visita, faz sol, o céu vermelho, depois a chuva, a tinta vermelha escorrendo sobre o meu rosto, e o da menina. O medo de altura, de cair da escada, ainda estão nesse rosto?


Somos visita em mim, e chove. Molho meu pés nos seus passos, a casa está bonita, as folhas caindo, caindo ainda, depois de tantos, tantos anos, na varanda do seu quarto. O medo do escuro, de ficar cega, ainda estão nesse quarto?


Agora sou visita, e a menina lava seus olhos nos meus, como quem se ajoelha para beber a água de um rio, a água correndo, e bebe das mãos estendidas, e com terra e folhas e restos. Seu rosto mais perto de minhas mãos brilha molhado. Seu rosto sem árvores que nos escondam, ou abriguem, ou dêem flor, ou fruto, e sem trégua. Quem mudou de lugar os lugares no seu rosto? E varreu as folhas, arrancou as flores, cavou um rio, separou em dois lados, quebrou a ponte, inventou um abismo.


Agora somos visita. Não sei quem me espera, quem virá, não sei qual dos cômodos enfeitaram com flores, onde pintaram o reboco, se mudaram os móveis de lugar, ou separaram com grades, se em algum lugar a casa ficou triste, ou quem restou, se ficou só, se chora para ninguém, ou canta para esquecer, mas a menina, eu sei,


ela também me abandona
às vezes



me dá adeus, e vai até o fim da rua. Com o vestido de flores, o sapatinho vermelho, a mochila com os livros, o caderno, os cabelos penteados para ninguém.

Perceba que

às vezes o silêncio
é necessário como uma realidade
atrás da cabeça, uma paisagem
em que descansa
a sua mesmice de ser
efêmero.

sábado, 14 de novembro de 2009

Orlando III


Orlando II


sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Orlando


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Quem quer fazer quadrinhos?

É bem fácil. Só não garanto que vai ser engraçado.
Acessem o Stripgenarator.com para ver qualé.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Quando ele se debruçou sobre o livro,

eu adivinhei que ele escreveria, querida, para a minha querida, por alegria. Adivinhei que fecharia a página e ficaria me olhando demorado os sapatos. Estavam sujos na ponta e ele se espantou com o fato de ninguém ter percebido que estavam sujos na ponta. E não levantou os olhos, adivinhei que preferiria deixar-se espantar com o fato de ninguém, querida, ninguém ter-te ainda limpado os olhos sujos na ponta.

Nunca durmo de olhos limpos, não aprendi a vedar a tristeza: adivinhei que ela vazaria pelos cantos e não adiantaria explicar, o desejo não se corrige, nunca deixará de ser essa água correndo. Existirá em mim, mesmo depois de fechar a página, depois da palavra e da língua, mesmo depois de ter escrito, querida, não amemos de palavra, nem de língua, existirá em mim. Continuará vazando das frestas da pedra, e eu adivinhei que a pedra do corpo pagaria em dobro o que a seda da alma ficasse devendo. Adivinhei que ele não levantaria os olhos, mesmo se eu me virasse e esquecesse o livro sobre a mesa, esquecesse o corpo, a pedra e o desejo sobre a mesa. Eu fechei a página, não, eu fechei o coração, o coração, para a minha querida, sobre a mesa.

Não levantaria. Adivinhei que ele me pediria não se vire, não esqueça, é que se me despedir, querida, ficaremos sujos. Sujos por alegria. Sujos dos beijos do chão. Sujos do ciúme, da ponta das unhas na pele, das pontas do cigarro pisadas, sujos. Não se vire.

Adivinhei que se demoraria nos sapatos. Sujos, sujos como a pureza dos meus olhos na sua presença. Bem ali, quando ele se debruçou sobre o livro, vazando, e não se corrigiu - o desejo não, o desejo correndo bem ali, bem na ponta, ali, por alegria. Querida, para a minha querida, ele derramou o copo de água sobre a mesa, enquanto eu lia. Você é minha travessia.

Per ardua

Pássaros,

Eu tinha esquecido minha senha (estou em Itabira) mas na hora em que fui postar um comentário sobre os girassóis da Juliana, descobri que meu notebook tem a senha salva.

Vc´s estão inspiradíssimos.
E gostei muito dos duelos sobre per ardua, que é o lema do meu clã escocês, o Macintyre.
Em gálico (acho que tb em latim): através das dificuldades, ou dificuldade.

Aproveito e peço licença para um comercial:
meu livro já está na Leitura do Pátio, Travessa e Ouvidor da Savassi.
Abs

Paulo

Sobre a metáfora:

Por que é que, quando me dão um vaso de girassóis, eu leio paixão, ou transbordamento, ou carne viva, ou qualquer outra coisa, menos

girassóis?

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Sobre Daniel

Em pequeno, já se podiam adivinhar nele os modos descuidados que o faziam embaralhar os fios, a cara fechada de esbarrar nas pessoas numa carreira até a escada, e as arestas de tanto se imiscuir nas brincadeiras dos adultos, derrubando as palavras pontudas que lhe iam ficando pegadas na roupa.

Em pequeno, já tinha empinado pelo menos uma pipa gigante e aterrorizado os habitantes de sua terra natal, tinha lido os russos e os fundamentalistas e sustentado sozinho a indústria dos sorvetes de pistache, tinha invertido seu relógio biológico de maneira irreversível e, muito provavelmente, deve ter quebrado com a bola dois vasos da avó, uma vidraça, alguma dezena de copos, o coração mindinho numa briga. Em pequeno, já se podia adivinhar nele aquela falta de modos, que o fazia vestir a blusa pelo avesso e depois pedir, num léxico digno de qualquer Grande Sertão, a cara mais limpa, Mãe, despelavessa?

Ainda os mesmos modos pontudos, os mesmos recessos sangrentos, a mania de bulir com o avesso, o descuido de quem tece nós de marinheiro com substantivos, negritos e sublinhados, numa carreira no verso e inverso, e alguns cacos nesse ínterim - porque, afinal, adora parênteses. Longos e despalavreados e desaforados parênteses.

Ao final, alguns copos e um imprestável apêndice a menos, pouquíssimos telefonemas desesperados, e um coração avesso, igualmente imprestável, ele se aproxima das pessoas esbarradas na escada, a cara mais limpa, sem cerimônia, pedindo licença, despelavessa?

My nightmare into dream

Alguns modos de perceber a feminina:
cúpula,
árvore,
vale,
anca,
água,
vento
na campina.
[João Filho]

my nigthmares into dreams... sister morphine…
[Marianne Faithfull canta]

Percebida a feminina dissolve em formas
o que disforme sobra
do homem esquecido sob o amontoado do dia
deforma as sobras dos cacos do pó e do vidro
da alma absorta em formol iodo ou morfina, triplica
em cúpulas as arquiteturas mesquinhas dos edifícios e da esquinas
resvala em sol
as linhas medidas dos horizontes de nadas sem brilho e abre
o corpo à vista do gozo vivido
sem perspectiva ou limite definido.

Comprimida na memória como um cisco a feminina
garante o risco elipse da história a nossa a minha
hipérbole de um cheiro de um gosto de um beijo
impreciso na tangente, faísca
que dorme debaixo da língua
feminina (toda língua é feminina?)
repõe os meus dias na malha fina do infinito, reorganiza
ao longo de um fio que me liga de mim a mim
do começo menino ao suplício do fim o escrito
trançado com os cabos de uma rede de energia
apocalíptica.

Enfim percebida
à feminina somente lhe resta ser aquilo
o que qui-
ser
------ forma divina
delícia e som repetido ao longo da vida
longo “i” cravado em meio ao “sim” que ela um dia me disse.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Delicadeza

As duas mãos

Batendo no chão com força


Cavando cada vez mais fundo

Palavra por palavra


As unhas embrutecidas

A dor contínua sob elas


A ansiedade das juntas

Em se manterem adultas


A terra removida


Sonho por sonho

Em um desespero brando


O desterro


Os ossos partidos

Do sentido


O amor sujo de terra


Os joelhos marcados


As duas mãos batendo


Para arrancar a raiva

De cada palavra


Para dizer o que é agudo

Sem que se quebrem os dentes


Os dedos cavando


As mãos batendo

Tanto tempo


É sempre imenso

O que dizemos sentindo



*que beleza, até que enfim pude brincar - espelho de: Per ardua -

Poema à moda Brina

− “Gostei muito desse!”
− “E eu muito mais desse seu
Foi mais delicado ainda

quando ele disse."

Foi mais delicado ainda
quando ele me disse, eu que ainda
não existia e com cuidado
ainda me partia
de mim
aos pedaços de fina porcelana de xícara
para que ele
como um carrasco me recolhesse
e ainda me dissesse seja
para ninguém apenas
para mim
que me sento à sua mesa
e me dedico ao seu banquete de sedas de Beijing.

E foi mais delicado ainda
o fim entre as pálpebras
essa lágrima
invertida como um silêncio líquido
dele que não me disse
para sempre
me permitir estar entre os cílios.

domingo, 8 de novembro de 2009

Per ardua ma non troppo

Ignoranti quem portum petat nullus suus ventus est.
[Sêneca]

Teimar bastante como uma cabeça
constante e sempre contra a parede
sangrar diariamente como a ponta
do murro em face de faca
rodar o corpo e chegar ao termo
empurrado pelo vento
fincar âncora e porto a favor
nas estrelas com sombreiro...

Mas como me dissesse Sêneca
a disciplina é árdua mas não ajuda
a quem não sabe aonde ir e sem mais
afunda.

sábado, 7 de novembro de 2009

Per ardua

non est ad astra mollis e terris via*
per aspera ad astra**
[Sêneca]
opta ardua astra sequi***
[Virgílio]


Ternura, pá de terra que bato com raiva
sobre o peito, para que outro cresça, coração
e desterrado, pela raiz e pelo áspero, de mim para sempre
arrancado, e por um rio cortado, coração
o rio que arranho com os dedos o peito a pele viva
sobre a pedra bruta, para que nascente exista, à força,
e pequena e frágil e no peito lavrado, coração, para que corra
terra adentro, e para sempre seja
negrume


eu bato, coração, para que seja aqui e para sempre,
e seja o mais sem
luz, o mais sem
ternura, que pequena frágil escura, coração
e em carne e viva,
seja aqui e para sempre e fundo
o
meu


céu.

[texto-espelho a propósito das abreviaturas e do infinito ;)]


* [não há caminho fácil da terra até as estrelas]
** [pelo áspero, até as estrelas - isso ainda vai virar tatuagem em mim ;)]
*** [escolhe o árduo a que se seguem as estrelas]

Poema à moda antiga

Foi tão delicado quando ele não disse
eu não te amo
tão delicado
apenas deixou cair o pano
das pálpebras
com cuidado
de verdugo
disparado
sem gatilho
entre as sobrancelhas
e os cílios.

Foi tão delicado quando ele não disse
eu não te amo
tão delicado
apenas me deixou cair no ânimo
tão leve lâmina
de pano
para que não me partisse.

Foi mais delicado ainda
quando ele disse.

Los Amorosos

Atendendo a pedidos, o poema que li no sarau de setembro, que é um dos meus favoritos, escrito pelo poeta mexicano Jaime Sabines.

Los Amorosos

(Jaime Sabines)

Los amorosos callan.
El amor es el silencio más fino,
el más tembloroso, el más insoportable.
Los amorosos buscan,
los amorosos son los que abandonan,
son los que cambian, los que olvidan.
Su corazón les dice que nunca han de encontrar,
no encuentran, buscan.

Los amorosos andan como locos
porque están solos, solos, solos,
entregándose, dándose a cada rato,
llorando porque no salvan al amor.
Les preocupa el amor. Los amorosos
viven al día, no pueden hacer más, no saben.
Siempre se están yendo,
siempre, hacia alguna parte.
Esperan,
no esperan nada, pero esperan.
Saben que nunca han de encontrar.
El amor es la prórroga perpetua,
siempre el paso siguiente, el otro, el otro.
Los amorosos son los insaciables,
los que siempre - !qué bueno! - han de estar solos.

Los amorosos son la hidra del cuento.
Tienen serpientes en lugar de brazos.
Las venas del cuello se les hinchan
también como serpientes para asfixiarlos.
Los amorosos no pueden dormir
porque si se duermen se los comen los gusanos.

En la oscuridad abren los ojos
y les cae en ellos el espanto.
Encuentran alacranes bajo la sábana
y su cama flota como sobre un lago.

Los amorosos son locos, sólo locos,
sin Dios y sin diablo.


Los amorosos salen de sus cuevas
temblorosos, hambrientos,
a cazar fantasmas.
Se ríen de las gentes que lo saben todo,
de las que aman a perpetuidad, verídicamente,
de las que creen en el amor como en una lámpara
de inagotable aceite.

Los amorosos juegan a coger el agua,
a tatuar al humo, a no irse.
Juegan el triste, largo juego del amor.
Nadie ha de resignarse.
Dicen que nadie ha de resignarse.
Los amorosos se avergüenzan de toda conformación.

Vacíos, pero vacíos de una a otra costilla,
la muerte les fermenta detrás de los ojos,
y ellos caminan, lloran hasta la madrugada
en que trenes y gallos se despiden dolorosamente.
Les llega a veces un olor a tierra recién nacida,
a mujeres que duermen con la mano en el sexo,
complacidas,
a arroyos de agua tierna y a cocinas.
Los amorosos se ponen a cantar entre labios
una canción no aprendida.
Y se van llorando, llorando
la hermosa vida.

Quinta-feira

Pássaros,

Obrigado pela presença no lançamento e pela mágica intervenção ao final, com um sarau de improviso.
Foi uma noite especial pra mim, jamais vou esquecer.
Espero que tenham gostado tb.
Um abraço do

Paulo

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Primeiros escritos

Queridos, aceitando o convite d'Os Pássaros, publico pela primeira vez algumas coisas que escrevi. Espero que não seja tão medíocre quanto temo... Abraço enorme, Leísa

POEMA ORTOGRÁFICO

Tiraram o circunflexo do vôo.
Agora o voo é sem asas.


O ABSURDO DO ENCONTRO

O amor é
aleatório
inconseqüente
improvável
- impossível -
mas assim mesmo
acontece
e continua


TINTA

(Para F. Valle)

Minha pele
Tua tela
Quente

Pincel

Tinta
Fria

Tua pele
Minha tela
Tinta

Nossos corpos
Solúveis
Em água

Teu suor
Solúvel
Em saliva


DO AFASTAMENTO

Quando eu te vejo eu me deparo
Com a minha própria incapacidade
Quero conseguir-me
Para fazer-te palpável
Quero deixar-me
Para fazer-te possível.

Para não me encarar
Evito-te.

Oscilo
Eu não consigo
Tento alcançar-te
Vacilo
Cada vez que me aproximo
Afasta-te
Cada vez que avanço
Recuo.

Por isso fico comigo
Por isso dá-se o impossível chamado tu
Retraio-me
Sou como um sedento
a beber água do mar
Não posso
Forjei meu próprio sofrimento
Moldei minha própria dor.

Sigo
Flutuo
Deixo estar.

Como a mariposa
que se atira à lâmpada
Repito.

CITANDO A MIM MESMA

Eu não pretendo ver todos os bons filmes, nem ouvir todas as boas músicas.
Não pretendo ler todos os bons livros, nem beber todos os bons vinhos pois, se assim o fizesse, não me restariam bons motivos para viver.

Leísa Amaral

The past sure is tense

Tenho fome da distância
Para tentar me ver de longe

Reconhecendo
Meu próprio aceno

Ainda verei os dias sem sentido de minha vida
estendidos no gramado entre os corpos ao sol
os dias da sua despedida verei retomar a ferida
que guardo como pira embalsamada em sal
sem qualquer traço pelo qual ser medida, vista
ou novamente sentida como bem que era mal
verei atravessar o silêncio ingente de que sofria
o barco calmo do meu presente livre e musical
livre verei a harmonia se empinar como a catedral
das novas preces que devotarei ao mesmo infinito
que celebram os homens as mulheres e os meninos
e homem serei as mulheres e menino agirei como tal
para a praia levando o oceano do anjo de Agostinho
eu me acenando distante de tudo de você e de mim.

[agradecendo imensamente ao Everton e ao venerável Capitão Beefheart que me deram o mote para atravessar uma manhã ressacosa ao som de Making plans for Nigel]

Tenho fome

Simples

Nas costelas vazias

Tenho fome nas mãos


De um rosto


Fome de mais dentes na boca

Para sorrir


Para mastigar a voz

Antes de dizer


Fome de uma palavra

Que nunca ouvi


Fome nos pés

De um rumo


De um passo de dança

Ainda por inventar


Ao som de uma música

Ainda por vir


Para os ouvidos ainda por nascer


Fome de um chão

Que faça sentido


Em sua dureza


Tenho fome

De uma mulher faminta


De morar em sua barriga


Fome nos olhos

De um horizonte


Onde o sol lembre de nascer


Fome de outros olhos

Nos meus


Da palavra retida

Na retina


Fome do silencio

Da paz que ele traz dentro


De si


Tenho fome das coxas

Da moça

De ser engolido entre elas


Tenho fome da boca

No seio


Fome sem freios


De correr

Mesmo que não haja


Chegada


E que atrás

Não exista nada

Do que fugir


Tenho fome da foice

Para cortar rente


Minha ausência de sentido


Tenho fome da distância

Para tentar me ver de longe


Reconhecendo

Meu próprio aceno



*desculpem amigos, passar assim voando. mas a coisa anda feia aqui pras bandas do sul. beijo a todos!

Hein? Nos jardins do Palácio...

Por ocasião do lançamento do livro de poemas do Paulo Merçon, um grupo deveras divertido tecia comentários nadas a ver com o céu, com o miolo ou com a capa...

Não, Ju, pra você curtir de verdade um Jack Daniel’s, você tem ficar cheirando antes. Não pode beber assim direto... tem que cheirar bastante...

Na hora, teve gente que pensou em rapé, enquanto eu coçava o nariz, sugerindo antigos e recidivos arcanos.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Hein?

− “O sr. madruga?”
− “Só depois do almoço.”
− “Cuma...?”
− “É quando me dá preguiça de trabalhar.”

Brasil 500 Pássaros, curió

Meu curió sumiu no céu
sumiu no céu
sumiu no céu...

Olhou pra baixo e me firmou
na terra
firmou na terra
firmou na terra...

Curió, curió
se eu não fosse tão sonso
também voaria pra longe
voaria pra longe e nesta noite tão longa
eu seria mais forte
e talvez com mais sorte
no céu não seria como você curió
na terra
distante e sozinho... tão só...

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

[não aplicar sobre a pele que sangra]

sobre a pele que sangra pequena ali, ali naquele pequeno recorte, naquele pequeno recorte-queimadura
naquela
omoplata clavícula antebraço joelho artelhos
no canto da boca
devagar de sair, manchando
sobre a pele que sangra azul, violeta
que vaza palavras e punhos, pessoas, tesouras,
cada um melhor que um lápis
melhor do que as histórias antigas e secretas
que todas as famílias e amores têm
do que as histórias de guerra e de pratos quebrados
da caixa de primeiros-socorros, dos gritos que os vizinhos não ouvem
das queimaduras que os amigos não vêem

não aplicar sobre a pele que sangra, não usar gaze nem esparadrapo, nem torniquete nem lenço improviso, nem pinos, nem talas, nem gesso, deixa as palavras marcarem a história, a batalha, a redenção e o cerco, deixa que marquem na pele, que sangrem aos berros, que vazem todos os pormenores, que comprometam, que alardeiem, que deixem bem claro que aconteceu sim, de verdade,

aquela velha história sórdida
que eu não conto a ninguém.




O silêncio apenas

Pássaros,

Amanhã, 05/11, às 18h30, nos jardins internos do Palácio das Artes, teremos o lançamento do livro "Abreviaturas do invisível", do (Pássaro) Paulo Merçon, pela Editora 7Letras.

Apareçam!

[Eu proponho um duelo com os poemas do Paulo! E sigam-me os bons! :D]

:)

antropofágicos


uma vez um amigo me pediu que o ajudasse a traduzir umas legendas para um obscuro filme japonês, desses que praticamente nenhum ser humano - normal- vê. legenda em inglês, óbvio, não falo japonês. na época - bons tempos aqueles - eu podia pegar um cardápio de pizzaria e dele extrair qualquer coisa, que fosse um lirismo ou um comentariozinho espirituoso na verdade cretino. pois bem. sobre a tradução árida do filme japonês que não sei o nome e inclusive nunca cheguei a ver (não tenho saco pra filme assim) eu fiz um texto, que segue abaixo. abaixo-abaixo a tradução da legenda para o português.


voilà:



"enquanto o gato cochila"*

enquanto o gato cochila


há esse bicho, e ele está entregue levemente entregue olhos fechados esquecido de si. do seu lado, do seu lado ou muito perto talvez com esse bicho aninhado no colo, há essa criança aprendendo um vício e tentando a fuga.há esse bicho, e ele está entregue levemente entregue olhos fechados esquecido de si. talvez com esse bicho aninhado no colo ou do lado dele ou muito perto há uma criança envelhecendo, envelhecendo rapidamente, rapidamente e sem saber.do lado desse bicho, que esquecido de si tem os olhos fechados e está entregue e sem defesa, a criança, essa criança que o carregou apertado nos braços descobre uma outra fuga um alívio uma caixa. a criança lê, a criança se apaixona pelas palavras. a criança fica presa num livro. enquanto tudo o que o animal entregue a si mesmo é capaz de fazer é um sussurro, há um mundo que acaba uma parte ruim que fenece; junto com ele as flores morrem, as flores que bebiam seu sangue.


a menina que escuta essa história se corrompe e comunga com o que não é bem visto. o animal de olhos fechados deixa de existir num suspiro. os homens que tinham coragem à força decidem que precisam se sentar um pouco. o que era solto e sem rédea repete palavras muito antigas e gastas antes dum ritual que deveria ser livre e isso não o incomoda, não o incomoda.


depois de ouvir essa história todos eles quiseram se apaixonar. e eu quero que esta história seja sua, ela é um presente, um presente para você.



texto original
[com uns buracos na tradução, que a gente teve que se virar]

Enquanto o gato cochila, a criança fuma seu primeiro cigarro.

Enquanto o gato cochila, the child lost much flesh from their bums.

Enquanto o gato cochila,a criança experimenta a prisão dos livros.

Enquanto o gato cochila,a Guerra Civil Espanhola e as flores murcham.

Depois de ouvir esta canção, a garota se tornou bruxa.

Depois de ouvir esta canção, o gato se tornou fumaça.

Depois de ouvir esta canção,Soldados esqueceram da guerra.

Depois de ouvir esta canção, Fanon began liking the Kyrie.

Depois de ouvir esta canção, todos quiseram se apaixonar.

Eu quero lhe dar esta canção.




obs.: sabe aquele cineclube que tinha no castelinho gótico na rua da Bahia? há, 2, 3 anos atrás? esse filme passou lá. perdi o contato com as pessoas, a identificação do filme se perdeu idem, então infelizmente fica aí essa referência torta.

[pequeno desvio ou: contraponto shakespeariano ao início de "o amante"]



Let those who are in favour with their stars
Of public honour and proud titles boast,
Whilst I, whom fortune of such triumph bars,
Unlook'd for joy in that I honour most.
Great princes' favourites their fair leaves spread
But as the marigold at the sun's eye,
And in themselves their pride lies buried,
For at a frown they in their glory die.
The painful warrior famoused for fight,
After a thousand victories once foil'd,
Is from the book of honour razed quite,
And all the rest forgot for which he toil'd:
Then happy I, that love and am beloved
Where I may not remove nor be removed.



soneto XXV, bald bard of Avon
imagem: Jo Cheung

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Brasil 500 pássaros

Seguindo a trilha do Eassis e da Laura, o meu avatar é o Beija-Flor-Brilho-de-Fogo
(também conhecido como Topázio vermelho)


"Habita a copa de florestas de galeria, capões de florestas altas e capoeiras.

Geralmente é raro, mas pode ser localmente comum, como no Estado do Pará, próximo ao Rio Trombetas.

Vive a pouca altura, disputando com outros indivíduos as flores de sua preferência. É briguento, vocalizando ativamente e expulsando quem quer que se aproxime de seu território."

:)

Fórum das Letras - Entre/Linhas final

Apresento-vos o Bené da Flauta! Foto creditada a Victor Godoy e disponível em http://www.ouropreto.com.br/noticias/detalhe.php?idnoticia=147. Poesias dele, em homenagem na homepage do restaurante que leva seu nome:

"Anteontem, eu andava pra lá de feliz.
Ontem, mais feliz que anteontem.
E hoje, ainda mais que ontem.
Quem vai crescendo em felicidade assim
Não estará no caminho da bem-aventurança?"

"Sou o Bené da Flauta.
Eu já sou tudo que é,
Tudo que tem que ser."

"É uma dessas inutilidades
Que enchem de alegria os nossos corações"

Duas entrelinhas finais: 1) duas crianças foram vistas na Rua São José atrás de bolinhas de sabão, saídas de uma máquina insistentemente ligada, à noite, nos dias do Fórum, e achando "muito lindo" aquilo tudo.
2) o taxista que me levou à rodoviária, ouropretano de nascimento e criação, disse que conheceu o Bené da Flauta. Então, as panelas mexidas à meia-noite devem ser verdade.
P.T.

Fórum das Letras - Fechamento

Simone Cristine Araújo Lopes
A Ju me cobrou o painel "Perfis Biográficos: entre a realidade e o mito" de sábado, antes de ela chegar. Não anotei muita coisa. Não que estivesse pouco interessante, ao contrário, é porque eu não queria perder o élan dos detalhes. E todos os palestrantes falavam rápido e com sotaques carregados.
Algo que o Paulo Markun disse e que achei interessante é a declaração de que "os melhores depoimentos para uma biografia são de mulheres porque elas têm o dom de guardar detalhes". Uma pergunta da plateia, bem provocativa, perguntou a eles como se sentiriam se fossem biografados. Ruy: "nem por cima do meu cadáver". Markun: "aceitaria daqui a 50 anos". Werneck: "minha vida daria, no máximo, um romance".
Algo que não sabia e que o Ruy relatou foi que nos dias de lançamento da biografia escrita por ele - "O Anjo Pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues" - houve um sequestro e a pessoa sequestrada, como não tinha o que fazer no cativeiro, pediu ao sequestrador que comprasse o livro, a fim de passar o tempo lendo. O sujeito leu em 2 dias e pediu outro livro, ao que o sequestrador resmungou: "Se vira! Leia de novo. Está pensando que isso aqui é o quê? Biblioteca?" De forma que, durante todo o período do sequestro, ele leu várias vezes o mesmo livro e acabou, por "diversão", fazendo a árvore genealógica da família Rodrigues, em papel de caderno e lápis, relatando as tragédias de cada um: o irmão de Nelson assassinado; o pai, morto de desgosto; o jornal empastelado pela ditadura; o incêndio que destruiu todo o dinheiro que eles tinham guardado, fazendo a família passar pelas maiores privações e fome; tuberculose; uma filha com problemas mentais; um filho torturado e preso no regime militar; separação da 1ª mulher, com quem reata nos últimos anos da vida. Ao final, o sequestrado (salvo engano, de nome Geraldo), chegou à conclusão de que se uma família passou por tantas dificuldades, ele tinha quase que obrigação de suportar os momentos de cárcere por que passava. De modo que Ruy acredita que "todo livro é de autoajuda porque não há nada como o poder de transformação que um livro tem, o poder da palavra".
Uma pérola do Fórum: "tem gente que traduz Machado de Assis para o alemão, o que é difícil, porque fica uma tradução boa, mas sem a ironia."
No último dia tivemos o painel "Mesa Portugal Telecom: uma radiografia do nosso mundo", com Gonçalo Tavares, Teixeira Coelho e mediação de Claudiney de Castro.
Gostei muito do estilo crítico, quase ácido, do Gonçalo. Ele disse, por exemplo, que "somos muito bons para transmitir os nossos preconceitos para o exterior", quase um recado para o povo da "alta cultura e de círculos literários restritos" que foram relatados pela Juliana. Ele menciona, aliás, que está se ensinando literatura brasileira no exterior e, há muito, passaram dos clássicos para os autores brasileiros contemporâneos.
Teixeira completou a ideia dizendo que "encaixar os livros em gêneros diminui em muito o que as obras têm de melhor".
O fechamento do Fórum foi com uma apresentação musical com Arthur Nestroviski, cantando e interpretando e José Miguel Wisnik, no violão. Ambos são professores universitários que se dedicam à música. Cantaram "Não tenho medo da morte", do Gilberto Gil, com o público. Veja:
http://www.youtube.com/watch?v=hiO24wBC04Q
Depois de tudo, conheci um novo amigo, que sentou ao meu lado. Ao fim, fui para "O Passo", onde bebi uma dose de Jack Daniels em homenagem aos Pássaros que vieram a Ouro Preto ou por aqui estiveram, de alguma forma, virtual ou real.
A lua estava cheia e linda, entre nuvens que brincavam de esconde-esconde com ela, em muitos formatos e jeitos. Tão clara que subi as escadas sem precisar de luz elétrica. Bastava o luar.
Achei o vídeo feito pelo Guilherme Mansur na abertura, com Arnaldo Antunes e Paulinho Moska. Vale a pena ver também:
http://www.youtube.com/watch?v=CTOldbxWnTQ
O resto é silêncio, como diria Veríssimamente.

Brasil 500 pássaros - seguindo a trilha


bacurau-pequeno

migratório, noturno e vive no chão. descansa durante o dia sob arbustos.

Brasil 500 Pássaros


Escolham o seu avatar, porque o curió é meu. Obs.: fiquei na dúvida entre ele e o jacu.

Curió: vive solitário ou aos pares, normalmente separado de outras espécies de pássaros, embora às vezes possa misturar-se a bandos de Sporophila e tizius.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Sobre colecionadores de selos, etc

Fórum das Letras - 1º/11/2009

Hoje o cansaço era tanto, que nem os sinos conseguiram me acordar. O badalar logo ao lado ficou em algum lugar bem ao longe de mim e não saiu mais de lá. Talvez espere um poema que virá. Ou talvez hoje eu tenha apenas sonhado com sinos. Não sei. Esperemos.

Passo o leme à Simone para o relatório dos painéis de hoje. O primeiro painel começa agorinha e terá Gonçalo M. Tavares. Para os Pássaros de asas curtas (ou enroladas), deixo a dica do livro intitulado "1", do Gonçalo, editora Bertrand Brasil, 2005. E esperemos os apontamentos da Simone!

Quanto aos debates de ontem, vamos lá:

O primeiro painel do domingo, intitulado "Biografia e revelação", teve Guilherme Fiúza (autor do livro "Meu Nome não é Johnny") e Paulo César Araújo (autor de "Roberto Carlos em Detalhes" e do ótimo "Eu não sou cachorro, não", livro sobre a música brega no Brasil) como debatedores.

Os autores relataram peripécias ocorridas durante o processo de escrita de biografias. Para Paulo, o biógrafo é um enquadrador de memórias, alguém que busca salvar uma história do preconceito, do anonimato ou do confinamento em uma nota de rodapé, "alguém que busca seguir os rastros deixados pela história".

O Guilherme, por sua vez, ao ser questionado quanto aos critérios que leva em consideração ao buscar histórias de anônimos, assinalou seu interesse por toda e qualquer trajetória humana que, se olhada bem de perto, seja rica e expressiva de algo que todos temos, em algum momento, na vida: a imprevisibilidade, a errância, "o caminhar no fio da navalha".

O segundo painel, intitulado "Fronteiras entre a ficção e o jornalismo?", teve como debatedores Cassiano Elek Machado (editor da Cosac & Naify), João Gabriel de Lima (editor da Revista Bravo), Arthur Dapieve (jornalista e professor) e João Moreira Salles (editor da Piauí e diretor dos documentários "Santiago", "Nelson Freire", "Notícias de uma guerra particular", entre outros).

João Gabriel, Cassiano e Arthur fizeram uma breve retrospectiva do jornalismo literário e de seus principais representantes (lembrei-me do Truman Capote que a Laura me emprestou e está lá na minha cabeceira, me esperando para o restinho do feriado).

Arthur comentou acerca da dissolução entre as fronteiras da ficção/não ficção e afirmou que "a parceria firmada entre o jornalismo e a literatura permitiu que o texto jornalístico respirasse mais". João Gabriel defendeu que a apuração dos fatos, quando exaustiva, extrapola os limites da estrutura de uma reportagem e necessita de uma estrutura narrativa mais complexa, próxima à literária, a fim de capturar os bastidores, o fato e seu entorno, "a história não contada", e entrelaçá-los. O autor assinalou ainda a proximidade existente entre os extremos narrativos: a obsessão pela realidade dos fatos/a memória e o delírio/a imaginação.

Moreira Salles preferiu ser o último a falar e o primeiro a nadar contra a corrente (e é claro que me apaixonei na hora). Ele o fez, como disse a Simone, "de uma forma contudente e com voz veludo", ao assinalar a ausência de aparato institucional e de recursos materiais para amparar o jornalismo literário no Brasil, cujos autores não encontram espaço em jornais ou revistas e acabam por se ver forçados a se refugiar em editoras. Relatou que editar a Piauí, nesse contexto, é mais ou menos como "tentar aprender a dançar samba no Japão", e depois ter que reaprender a dançar todos os dias.

Ao ser arguido sobre como, na condição de documentarista, ele lida com um personagem real que carrega em si muitas características ficcionais, Moreira Salles respondeu: "Basta descrevê-lo. Esses personagens costumam ser "pontos fora da curva" e um documentarista não deve se defender da possibilidade de ser seduzido por eles e desconstruí-los, mas deve se render a essa possibilidade e revelá-la".

O terceiro painel, intitulado "A literatura em outras linguagens", teve Adriana Lunardi (autora de "Vésperas" e "Corpo Estranho"), Max Mallman (escritor e roteirista de programas da Globo, como "A grande família") e Jorge Diaz (roteirista e escritor espanhol).

Foi um painel muito fraco, tanto pela forma (o moderador era chato e não tinha iniciativa, e os debatedores pareciam profundamente entendiados de estarem ali no palco), quanto pelo conteúdo.

Em determinado momento, Adriana, Max e a platéia envolveram-se em um quase monólogo em defesa da superioridade da "literatura culta" em relação à "literatura menor" e ao cinema, à TV, internet, histórias em quadrinhos e outras formas de expressão, e eu simplesmente fiquei... com preguiça. Muita preguiça.

De modo que saquei de meu velho método de sovrevivência em palestras pedantes e, enquanto os autores discutiam o status existencial da "boa literatura", o papel desencaminhante da TV e da internet, a superioridade de seu seleto grupo de leitores cultivados no que de melhor a literatura tem a oferecer, etc, e coisas do gênero, a única coisa que passava pela minha cabeça era (1- detergente; 2- sabão em pó; 3-leite, etc) a lista do supermercado para terça. Enfim.

O único que tentava (em vão) ligar o fio-terra na platéia e nos dois palestrantes citados era o espanhol (Jorge), que argumentou que "cada tempo tem seu jeito de contar, de modo que a literatura, o cinema, os quadrinhos e até o video game são formas de expressão igualmente válidas, entre as quais não é possível fazer nenhuma hierarquização." Entretanto, ninguém lhe deu ouvidos e, em determinado momento, ele simplesmente se calou e ficou quieto no seu canto, esperando pacientemente pelo fim de todo aquele martírio.

Ao presenciar aquele momento de levitação coletiva rumo aos altos, restritos, seletos e quase inatingíveis círculos literários, não pude deixar de pensar em... colecionadores de selos. Ou colecionadores de qualquer coisa, enfim, pensei em qualquer um de nós quando precisa de se agarrar muito e com força a alguma coisa muito pequena e muito menor do que nós.

No Cine Vila Rica, agarraram-se ao balão inflável da "boa literatura". A vista da paisagem, lá de cima, até deve ter sido bonita. Mas eu bem que prefiro a gente do lado de fora, correndo da chuva, o moço sentado na esquina vendendo jabuticaba no carrinho, as mãos negras arrumando o plástico por cima, para não molhar a fruta, e o sol fraquinho cobrindo tudo. Eu prefiro o lado de fora, do chão, tomando chuva. Eu sinceramente prefiro o que desencaminha.

Bom, é isso, pessoal. Câmbio, desligo! :)

Fórum das Letras VI - Entre/Linhas

Simone Cristine Araújo Lopes
As pedras contam mais histórias que os pés são capazes de escutar.
Foi isso que eu pensei ao começar essas entrelinhas a respeito de alguns aspectos de Ouro Preto que, para o distraído, passa batido.
Voltando do Restaurante "Bené da Flauta" e contando para minha sobrinha que lá jantamos, ela perguntou, inocente, se eu tinha ouvido alguma coisa, ou sons de panelas ao vento à meia-noite. Achei estranha a pergunta e disse, naturalmente, que "não", embora eu me recordasse, perfeitamente, de que eu tinha perguntado as horas para a Juliana que, olhando o relógio, sentenciou: "meia-noite em ponto!" Era a virada do dia das bruxas (31 de outubro) para o de todos os santos (1º de novembro), dia de se cobrar, aliás, todas as pendências a pagar no "dia de são Nunca". Minha sobrinha, então, explicou: "Vocês não sabiam que a casa do restaurante é assombrada pelo fantasma do Bené da Flauta que, segundo testemunhas, passeia por lá, batendo nas panelas sempre à meia-noite?"
O mais interessante disso tudo é que o tal Bené da Flauta existiu. Um personagem das ruas ouropretanas, com sua inseparável flauta, feita por ele mesmo, de bambu ou similares. Era o animador dos primeiros festivais de inverno de Ouro Preto, onde declamava frases e versos como esta:

"Assim sim, mas assim também não.
Essa vida é mesmo assim,
quem é muito no começo,
chora saudades no fim"

Morava num cafuá em Ouro Preto, com a irmã, tinha fama de louco, nunca teve companheira e, em troca de tostões que pagassem sua cachaça, espalhava sua arte.
Ontem, visitamos outro lugar que, por sua vez, foi a casa do poeta Cláudio Manoel da Costa, o inconfidente que "foi suicidado" na Casa dos Contos, cujo corpo, já inerte, foi encontrado num dos cômodos que, por esses dias de Fórum, abriga umas telas de Mona Lisa, de artistas mineiros, cada qual com sua leitura, adaptação e cores: tem a "Dama Lisa", que mostra Mona Lisa numa carta de baralho numa dama de copas, tem a "Muunalisa', onde desenharam uma vaca no lugar da mulher e vários outros, graves, hilários, cubistas, lindos, expostos na coleção em mais de 100. Para se ver como a morte sempre se enamora da vida...
A casa do poeta Cláudio está bem conservada, uma das poucas que resistiram a mais de 2 séculos, guardando a separação dos 145 cômodos (uma curiosidade é que vários quartos de filhas eram nos fundões das casas, sem janelas e, para saírem de lá, eram obrigadas a passar pelo quarto do pai). E, na casa do poeta imortal havia - e ainda há - um jardim...

"Para cantar de amor tenros cuidados
tomo, entre vós, ó montes, o instrumento
Ouvi, pois, o meu fúnebre lamento
se é que de compaixão sois animados"

As cruzes com franjas e Ouro Preto é para afugentar o terrível e implacável "Monstro Vira-Saia" que ataca as mulheres. Portanto, se andarem pelas ruas e virem esse tipo de cruz pode saber que o tal monstro já pintou o 7 por ali...
Há quem ouça correntes e vozes de lamento na região da Igreja de São Francisco de Assis, ou o padre que desaparece bem na porta da Igreja do Pilar e outros fatinhos.
Sobre o Fórum em si, o que eu teria a dizer, entrelinhas, são apenas 2 coisas: o João Moreira Salles foi o ponto de discordância do painel de que participou. Juliana gostou dele, ao contrário de alguns. Também, ela ama o que é desfocado.
Outra é que procurei na livraria do evento um livro de poesias recém-lançado "Abreviaturas do Invisível". A moça não localizou e disse que não conseguiria até o fim do evento. Então, vou reclamar com o autor quando o encontrar. Onde já se viu um evento literário e não ter livros dele para venda?
Saudações a todos.

domingo, 1 de novembro de 2009

A banhista dos anos loucos

Pacific yet passionate
for if not both, how

could [she] be great?
Imersa em autocromo
contraste
com a baía de São Jerônimo
o sábio
não a cidade
mergulhada em um campo de algas
para decocção do sonho...


Aos pés do santo de Marianne
brilha como um asno
o homem oceano recife ou ar em que descansam
os pés aos pés dos quais constante
o seu leão
fiel em autocromo
desejo
a fome em que me banho
louco há muitos anos.

[texto a ser continuado, respondido, desmontado, subvertido por algum pardal, pombo, avestruz, carcará, coruja, canário, jacu, pintassilgo etc. e ave, até que o texto se perca, se extravie, sem dó e sem regresso, e melhor se atravesse]

Fórum das Letras V - Entre/Linhas

Pois é, Ju, agora não mais podemos dizer que não temos uma foto com o Sasa e o Edney Silvestre... Desafio aos pássaros: onde estamos?

Notícias do front

Fórum das Letras - 31/10/09

Pois é, Pássaros, cheguei ontem a Ouro Preto, subi correndo a ladeira, no meio da chuva, direto para o Cine Vila Rica, bem em tempo para os debates do primeiro painel. Hoje a correspondente do Pássaros no Fórum das Letras, já com atraso, sou eu. Cheguei na pousada e desabei de sono, mas sirvo hoje o relato dos painéis de ontem, como o pão fresquinho das manhãs. A Simone, por sua vez, fica com o sabor de toda coisa: as entrelinhas do evento.

Permito-me apenas uma entrelinha: é que acordei hoje com os sinos tocando. Não era simplesmente o badalar, era uma canção, um lamento, qualquer coisa assim que ainda vai virar um poema em mim. :)

Abri as janelas, os sinos entraram com mais força no quarto, e tinha um céu lindo, e pássaros, e um gato - um gato imenso e gordo (sério, parecia uma onça) - passeando pelos telhados da casa ao lado. Cara, esse gato é um sobrevivente! Daqui a pouco, colocarei pão com manteiga no parapeito. :)

Bom, quanto aos painéis de ontem:

O primeiro, como disse, eu perdi. Então passo a bola para a Simone.

O segundo era intitulado "Memória reinventada", com Edney Silvestre e um escritor de que já gosto muito, o Sasa (lê-se "Sacha" - mas tinha gente chamando-o de "Sassá") Stanisic.

Na verdade, uma série de pequenos acasos me levaram ao Sasa. Tomei conhecimento dele na Cultura Alemã, no início de 2008, em uma edição especial da revista Deutschland sobre os novos autores de língua alemã. O título do romance do Sasa me chamou a atenção pelo inusitado: Wie der Soldat das Grammofon repariert (Como o soldado conserta o gramofone). Eu pensei: Cara, será que algum dia esse livro vai ser editado no Brasil?

Fico triste com o pouco de literatura em língua alemã que se edita por aqui, tem tanta coisa tão linda que nem chega às mãos dos leitores de língua portuguesa! Uma das professoras da Cultura me emprestou o original, que eu demorei mais ou menos um semestre para ler, o dicionário do meu lado sempre, fazendo o caminho das pedras (sério, o alemão do cara é bizarro, o típico alemão meio falado/meio inventado por um esloveno). Aliás, essa professora nunca mais me emprestou romances no original: ela deve ter pensado que eu nunca mais iria devolvê-lo!

(Confesso que já fiz isso algumas vezes, mas só com obras pelas quais me apaixonei perdidamente e que não eram devidamente amadas pelo proprietário. Portanto, foi um crime passional, perfeitamente perdoável, Pássaros.)

Enfim, no início de 2009, eu já havia me esquecido do romance de título engraçado que me chamara a atenção, quando, fazendo minha ronda habitual pelos sebos do Centro, me deparei com a edição brasileira do livro, novinha, em uma estante de livros a R$ 10,00. Como gosto de uma boa promoção, e me encantam títulos desconhecidos de autores com nomes bizarros, e como eu nem esperava vê-lo publicado por essas bandas, imediatamente me lembrei da matéria da Deutschland e pensei: Cara, esse livro já é meu!

(Como o soldado conserta o gramofone. Sasa Stanisic. Editora Record. Rio de Janeiro: 2009. Tradução de Marcelo Backes. Recomendo a todos :))

Qual não é a minha supresa quando, ao consultar a Programação do Fórum, leio um nome bizarro que me remete a uma matéria daquela quase esquecida Deutschland lida ao acaso, sobre um romance que me caiu nas mãos também ao acaso, e penso: Cara, o Sasa em Ouro Preto?!

E aqui estou eu. No painel da memória reinventada, o Sasa (praticamente um menino, feito a gente, quase um Pássaro :)) relatou como, na construção de seu romance (fundado em sua vivência da guerra da Bósnia e do esfacelamento de seu país, quando garoto), utilizou-se da recriação de cenas reais (apenas recordadas), por meio da invenção da emoção.

Esse ponto de vista é bacana, porque inverteu a lógica até então debatida no painel, pela qual, segundo afirmara o Edney, um escritor não consegue prosseguir em uma narrativa inventada, enquanto não coloca suas emoções reais no enredo. "Como se vivenciasse a cena inventada", disse o Edney.

Preferi a proposta do Sasa, a de inventar o sentimento de uma vivência real. Não sei, o que vocês acham, Pássaros? Alguns poderiam argumentar que isso fere a autenticidade da emoção, mas eu acho que isso apenas amplia os limites da emoção exprimível. Sei lá, um dia a gente se reúne numa mesa de buteco para discutir a respeito, eu já estou aqui me perdendo no meu relato do Painel. ;)

O Sasa também falou sobre alguns de seus métodos de escrita (a parte terrorista de toda coisa, eu penso), para emigrar-se de si (logo ele, que é um expatriado), como ler cartas dos outros ou seguir estranhos na rua. Acho que também sou adepta desses métodos, digamos, pouco convencionais. Digamos que também se trata de um crime puramente passional, Pássaros. :)

A respeito de seu romance, em que o personagem faz um inventariado de pequenas memórias de um país que não existe mais e de pessoas esfaceladas (o sabor do sorvete Estela...), o Sasa afirmou que essa é quase uma tentativa fracassada, porque a memória não é algo que um homem guarda na solidão. A memória é algo que só existe se for compartilhado.

Eu acho que a memória é mais ou menos como o sol atravessando os vitrais de uma igreja. Se você reparar bem, ele os atravessa de diferentes ângulos durante um dia inteiro. Também a memória se movimenta, ela muda de lugar e cor continuamente, formando diferentes reflexos que dançam no chão da igreja e se transformam à medida que se move o sol lá fora. A memória não é apropriável, não é coisa de se guardar, como quem enterra um objeto na gaveta: ela morre ou então escapa. É que a memória tem movimento, tem luz própria.


Da palestra do Edney, o que me ficou com mais força foi a leitura do primeiro parágrafo do seu romance, mas isso são cenas do próximo capítulo, quando eu conseguir adquirir a obra na livraria aqui perto. Aguardem. :P

O segundo painel, intitulado "Paixão pela Palavra: a leitura é uma forma de autobiografia?" (aliás, o título é um tapa de luva de pelica em alguns comentários anônimos que andam rondando nosso blog, não?), com o Ruy Castro e a Heloísa Seixas.

Ambos assinalaram a importância da palavra lida - a palavra lida em voz alta e a palavra contada - em suas vidas, e de como ambos passaram por um momento catártico de conversão da palavra falada em palavra escrita.

A Heloísa relatou seu processo (em suas palavras: assombrado) de iniciação à escrita, a partir das histórias que inventava e contava para si mesma, a vida inteira, a partir dos ecos das histórias que a avó lhe contava. "Eu escrevia ao sabor dos dedos, em segredo, como se fosse um surto, algo incontrolável.", disse.

Ela contou um caso engraçado, de como o Ruy (eles são marido e mulher, ou vice versa) aprendeu a ler sozinho, no colo da mãe, enquanto ela lia, no jornal, "A vida como ela é", do Nelson Rodrigues. De modo que, nas palavras da Heloísa: "O Ruy era a criança de seis anos que mais entendia de adultério no Brasil!" :D

O Ruy me ganhou com uma frase (ok, eu sou fácil), ao comentar acerca dos livros que foram essenciais para sua formação: "Nunca estabeleci uma ordem de valores entre a literatura chamada "culta" ou "adulta" e a literatura popular. Qualquer bom livro, não importa de que gênero for, será um livro de auto-ajuda."

Para deixar um gostinho em vocês, termino o relato com a sugestão de um conto mínimo da Heloísa, que ela leu, muito emocionada, intitulado "As mãos de Mariá". Quem sabe alguém não o lê no próximo sarau? :)

Estou à janela e o gato gordo gigante acaba de tentar atacar uma pomba no telhado do vizinho. Vejo que ele solenemente menosprezou meu pedaço de pão, como o fazem os legítimos sobreviventes. :)

Fórum das Letras - Foto do "Entre/Linhas"

Foto disponível no site do evento: www.forumdasletras.ufop.br

Fórum das Letras IV - Entre/Linhas

Simone Cristine Araújo Lopes
Enfim, não mais estou só. A Ju chegou, hoje, ao Fórum das Letras e combinamos que ela ficaria responsável pelo relato dos painéis no blog e eu, pelo que denominamos "entrelinhas", ou seja, tudo aquilo que acontece nos bastidores ou ao redor do evento.
Começo, então, relatando uma coisa inusitada que aconteceu comigo. Estava, na sexta, tomando um café n "O Passo" com minha sobrinha e, enquanto estávamos esperando o pedido, um homem, em outra mesa, do nada, se aproximou e entregou na minha mão um livro de poesias e textos de William Blake, dizendo que eu gostaria. Achei muito diferente a situação, mas, como eu não tinha levado nada poético para ler no meio-tempo livre, resolvi aceitar e ficar folheando poesia. E eis que descubro lá um verso que sempre gostei, sem me atinar que, afinal, o autor que ele me oferecia era o autor desses versos que é o abaixo:
"Ver o mundo num grão de areia/e o céu numa flor silvestre
segurar o infinito na palma da mão/e a eternidade numa hora"
Fiquei feliz com outros textos e poemas, e, no final, antes de ir embora, dirigi-me à mesa dele e devolvi o livro, indicando esses versos para leitura dele, agradecendo pela gentileza.
Outra entrelinha foi entre o 2º e 3º painéis de ontem. É que, na hora em que eu saia do Teatro, o Frei Betto passou pela gente, de cabeça baixa, quase que não querendo ser percebido. Só que não me contive e cumprimentei-o. Ele parou, olhou para mim e disse: "Olá, tudo bem com você. Maseu não estou me lembrando do seu nome." Eu ri e disse: "Nem deveria. Conheço-o por esses eventos, no Palácio das Artes, por exemplo, e a pessoa mais próxima de você que conheço é um Frei dominicano, de quem gosto muito, que mora em BH" Ele sorriu e se despediu para tomar assento entre a plateia e assistir ao próximo painel, antes do qual ele participaria.
A Juliana chegou no sábado, com os pais, para os eventos. Trouxe o livro do Sasa, escritor esloveno que esteve no Fórum, para autógrafo. O sujeito é a cara do Samuel Rosa do Skank! Achou graça de a gente estar bem na frente, deitadas em almofadas, para o painel de que participaria. É que no ambiente, há cadeiras para sentar, mas há almofadas na parte frontal, bem próximo dos participantes, onde se pode deitar, o que eu e Ju fizemos.
Na saída para os autógrafos, nos reconheceu, e, em inglês, perguntou se éramos as moças que estavam deitadas na frente. A Ju, que fala inglês enquanto eu só pesco, respondeu que sim. Ela pegou o autógrafo dele e tiramos fotos, que, por azar e uma boa dose de timidez, saiu tremida.
Uma coisa muito bacana que vi acontecer nesse painel é algumas crianças usando o fone para pegar a tradução. Uma menininha até segurava o fone como que para ouvir melhor. Prestava uma atenção que encantava!
No final, teve via-sacra poética com um bloco carnavalesco andando pelas ruas de Ouro Preto, que acompanhamos. Alguns recitavam poesias em voz alta. A lua quase plenamente cheia apareceu, dando um charme todo especial à noite. A Ju me contou, para meu espanto, que é a primeira vez que vem a OP. Então, não deu outra, comecei a contar as histórias - que eu conhecia - das pedras por onde andávamos. Visitamos a casa de Tiradentes, do poeta Alfonsus de Guimarães, Casa dos Contos, Praça Tiradentes e outros.
As ruas estão cheias de gente.
Terminamos, juntos, com a Ju recitando, pela primeira vez à mãe dela, a poesia do "eu acredito no espinho", em homenagem ao escondidinho de bacalhau da Dona Vânia que, aliás, tinha um espinho.
P.T.

sábado, 31 de outubro de 2009

Diálogo do 5º com o 4º

Quando o amor atravessa mais longe
cartas sem margem
cabeçalhos cidades sem data sem nome
cabelos colados lábios vermelhos selados de fome
quando o amor atravessa sem alvo
fora de órbita seu próprio horizonte o mar o inferno Amazonas
quando o amor oceano já não voa já não anda já não salta
quando o amor anda e salta
lá do alto esse amor essa carta já não vê mais a praia já não vê mais a margem
tudo é olho mundo verde plano âmbar sem escolha
mundo olho
a garrafa e sua rolha.

[blá, blá, blá... vocês estão cansados de saber... programa abaixo]

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Diáfanos 4



meu amor se eu pudesse atravessar a - outra - margem
se eu pudesse atravessar o barulho
se eu me atrevesse a te gritar meu nome
e anunciasse que recebida a carta
e corresse a responder no verso
mas não posso, meu amor, não posso

nós quando nos despedimos, cada um ao seu degredo, destino
e eu implorei que ficasse e jurei te pertenço e não há saída
e você sorriu: castigo
e meu peito parou e eu dei meia volta e esperei de costas, vazei os olhos, selei os lábios
guardo a carta, a garrafa, o alívio

longe
você
para sempre
seu corpo, seu texto, seu suor e seu sexo
não vejo, não falo, fugi, me disfarço

graças ao mar, à areia
graças ao assassinato do amor que eu quis
do amor que eu fiz e teimei, exigi

graças ao meu amor tão bruto e ao meu desejo doente,
você longe para sempre
e eu nunca mais nem sol nem cor.




[texto a ser continuado, respondido, desmontado, subvertido por algum Pássaro, ou vários, ou no anonimato, até que o texto se perca, se extravie, sem dó e sem regresso, e melhor se atravesse]




imagem:
Jana Stolzer