sábado, 10 de março de 2012

sobras



os olhos que você afunda no chão
eu os colho como essa
flor no muro um
botão que eu arranco
do galho e te estendo
em flor essa
flor que ainda não há
que não nunca
rebentará
do botão dos seus olhos do chão
eu colho e te estendo esse

grão

que não me cabe.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

farol


são de luz presa os meus
olhos
são ali onde a luz bate
um fio desfazendo-se
emaranhado nos galhos
nos telhados
nos meus olhos essa luz
inquieta de sempre tocar
e não prender.de luz presa os meus
olhos
são ali onde a luz bate
um fio desfazendo-se
emaranhado nos galhos
nos telhados
nos meus olhos essa luz
inquieta de tocar
e não prender.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Sarau de Poesias & Imagens


Sarau de Poesias & Imagens

As turmas do Nosso Sarau e dos blogs Atenção Flutuante e Pássaros Achados vão se encontrar neste sarau de poesias e imagens. Serão apresentados curtas-metragens inspiradores de realizadores mineiros. Teremos também poemas musicados. Tragam suas poesias próprias e alheias!

Local:

Café e Locadora Cinecittà – Rua Aimorés, 582 – Funcionários

www.cinecitta.com.br

Dia 23/11/2011, quarta-feira

Início: 19:30h

Exibição de curtas: 20:00h

Em seguida, sarau de poesias.

Mais informações: Leísa Amaral, Carolina Esselin, Juliana Brina e Flávia Resende

www.atencaoflutuante.blogspot.com

www.passarosachados.blogspot.com

sábado, 24 de setembro de 2011

Um beijo

passo a passo
(pouco a pouco)
lado a lado
frente a frente
cara a cara:
um beijo
gota a gota


(Leísa Amaral - 24/09/2011)

terça-feira, 17 de maio de 2011

~

Aquele traço marcado...
                    o que é?

Foi um risco que se perdeu da tinta.
Foi o corpo que faleceu no ar.
Foi o vazio de ver tudo círculo
                 e não poder discutir a forma.
Foi o resto perdido no branco.

Aquela marca azul,
                     o que é?

É uma linha entre o campo e o céu,
                           o céu e o mar.
É uma mancha no mar.

Tudo cabe dizer e tudo pode ser dito:
que é esboço, linha, lance, sinal, vestígio.
Que é rastro.
É um erro sobre o texto,
um pedaço de mágoa no inteiro,
imperceptível,
                    pequeno e mudo,
cômodo, triste.

Sem argumento.
Apoético.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Si me comes a besos

... tus dientes serán orquídeas.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Vem,

vem, noite ou pranto ou dia ou vento
quem quer que sejas que seja o novo
abrindo o canto na carne clara.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Sarau com despedida, despedida com sarau


Ei, gente querida!

Vai ter sarau nesta sexta, 29/04, a partir das 19h30, no Café Viena (Av. Contorno. 3968 - Funcionários).
Apareçam com seus poemas, seus terrorismos e seus abraços demorados! :-)

Beijos,
Ju



segunda-feira, 25 de abril de 2011

Moi

1. Nome
Thalita

2. Por que lhe deram esse nome?
É um nome bíblico. A menina que todos creem morta, e que Jesus diz estar dormindo.

3. Você faz pedidos às estrelas?
Não. Faço pedidos ao vento.

4. Gosta de pão com o que?
Com tudo!

5. Você é sarcástico?
Absolutamente.

6. Desamarra os sapatos antes de tirá-los?
Não. E também não desamarro para colocá-los.

7. Acredita que você seja uma pessoa forte?
Não acredito, e não sou.

8. Seu sorvete favorito:
Gelatto de Brownie. nham nham

9. Verde ou azul?
Verde.

10. O que menos gosta em você?O fora.

11. O que mais gosta em você?
O dentro.

12. De quem você sente saudades? 
De quem minhas mãos não mais alcançam.

13. Qual foi a ultima coisa que comeu hoje?
Arroz temperado (vulgo arroz de ontem com tudo misturado)

14. O que você está escutando agora?
Piti - Vander Lee

15. Bebida favorita:
Limonada

16. Comida favorita:
Gnocchi... ou NHOC (o nome é muito propício ao abocanhamento)

17. Dia Favorito do ano:
Dia de folga!

18. Inverno ou verão?
Inverno.

19. O que tem na parede do seu quarto?
Nada. A casa foi reformada há pouco tempo e ainda não pude colocar as coisas do meu jeito.

20. Onde foi o lugar mais longe que vc foi?
Ao paraíso.

domingo, 24 de abril de 2011

Duas observações pertinentes sobre o pássaro

Todo pássaro é, antes, estrangeiro do céu que explora.
Todo pássaro é, sempre, exilado da superfície em que nasce.

Jardim

Nada sobrevive ao outono.
Ao inverno, nada.
O esboço perpétuo do tempo
vingará a beleza das flores.
            Cortes de aço.

Insuspeita forma das estrofes raras
e das letrinhas ganhando vida,
cada qual rainha absoluta do fonético mundo leitor.

Riscos levarão aos abismos
e às metáforas perfeitas e ignorantes
para versos de sutil poesia.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Dando continuidade à apresentação...

1. Nome
Simone.

2. Por que lhe deram esse nome?
Minha mãe queria Maria das Graças, mas minha irmã mais velha convenceu meu pai a dar o nome da melhor amiga dela, Simone.

3. Você faz pedidos às estrelas?
Sim.

4. Gosta de pão com o que?
Com manteiga derretida. Com maionese - daquelas azedinhas - também me vai muito bem.

5. Você é sarcástico?
Às vezes.

6. Desamarra os sapatos antes de tirá-los?
Tenho poucos calçados que necessitam ser desamarrados, mas desamarro, sim!

7. Acredita que você seja uma pessoa forte?
Sim. E, às vezes, acho isso um saco.

8. Seu sorvete favorito:
O gelado.

9. Verde ou azul?
Azul-marinho.

10. O que menos gosta em você?
Alguns excessos.

11. O que mais gosta em você?
Resiliência.

12. De quem você sente saudades?
De todos que amei e que se foram para nunca mais na Terra, ou os que não mais vejo nem verei. E, porque sinto saudades (no plural), ainda amo.

13. Qual foi a última coisa que comeu hoje?
Café com leite e pão quentinho na manteiga derretida.

14. O que você está escutando agora?
Veículos na rua, um barulho de serralheria trabalhando e, no lugar onde estou, o som das teclas do computador.

15. Bebida favorita:
Vinho.

16. Comida favorita:
A comida mineira.

17. Dia Favorito do ano:
08 de dezembro.

18. Inverno ou verão?
Inverno.

19. O que tem na parede do seu quarto?
Atualmente, nada. Mas já houve uma prateleira com livros e até um quadro com foto antiga.

20. Onde foi o lugar mais longe que vc foi?
Um amigo, certa vez, disse que "longe é um lugar que não existe". Duvidei. Até que ele provou e passei a acreditar. Mas, se eu for pensar no aspecto quilométrico, foi Pernambuco; no aspecto da fé, à antesala do Céu; no aspecto pessoal, ao coração de alguém que eu sabia que não gostava - e ainda não gosta - de mim.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

sobre ela

Ei, pássaros,
Sugiro que quem quiser se apresente aqui também. :-)

1. Nome
Juliana.

2. Por que lhe deram esse nome?
Uma menina correndo em uma praça esbarrou em minha mãe e alguém chamou atrás:
"- Juliana!"

3. Você faz pedidos às estrelas?
Só para as cadentes.

4. Gosta de pão com o que?
Com manteiga.

5. Você é sarcástico?
Não.

6. Desamarra os sapatos antes de tirá-los?
Não!

7. Acredita que você seja uma pessoa forte?
Agora sim.

8. Seu sorvete favorito:
Jabuticaba.

9. Verde ou azul?
Vermelho.

10. O que menos gosta em você?
Teimosia.

11. O que mais gosta em você?
Teimosia!

12. De quem você sente saudades?
De mim.

13. Qual foi a ultima coisa que comeu hoje?
Chocolate.

14. O que você está escutando agora?
Os carros.

15. Bebida favorita:
Chá de jasmim.

16. Comida favorita:
Sorvete.

17. Dia Favorito do ano:
Setembro.

18. Inverno ou verão?
Primavera.

19. O que tem na parede do seu quarto?
Livros.

20. Onde foi o lugar mais longe que vc foi?
Dentro.

mais poesia peruana :-)

"O linguado
[José Watanabe]

Sou
o gris contra o gris. Minha vida
depende de copiar incansavelmente
a cor da areia,
mas esse truque sutil
que me permite comer e enganar inimigos
me deformou. Perdi a simetria
dos belos animais, meus olhos
e minhas narinas
migraram para um mesmo lado do rosto. Sou
um pequeno monstro invisível
estendido sempre sobre o leito do mar.
As rápidas anchovas que passam a meu lado
crêem que as devora
uma agitação de areia
e os grandes predadores me roçam sem perceber
meu medo. O medo circulará sempre em meu corpo
como outro sangue. Meu corpo não é muito. Sou
uma pazada de órgãos enterrados na areia
e as margens imperceptíveis de minha carne
não estão muito distantes.
Às vezes sonho que me expando
e ondulo como uma planura, sereno e sem medo, e
maior
que os maiores. Eu sou então
toda a areia, todo o vasto fundo marinho."


"Poema do inocente
[José Watanabe - esse é dos meus prediletos]

(...)
Das delicadezas, a do sol é a mais cruel
consome árvores e lagartixas, mas respeita sua casca.
Fixa em tua memória esse ensinamento da paisagem,
e este outro:
de quando tocaste na árvore seca um fósforo trivial
e ardeu demasiado súbito e desmedido
como se fosse pólvora.
Não te culpes, quem iria calcular tamanho estrago!
E aceita: o fogo já estava ali,
tenso e contido debaixo da casca,
esperando teu gesto trivial, teu gracejo.
Recorda, pois, esse repentino estrago (sua intraduzível beleza)
sem arrependimentos
porque foste tu, porém tampouco.
Assim
em tudo."

a fúria que se passa entre dois corpos

"A fúria que passa entre dois corpos
[Rossela di Paolo]

A fúria que passa entre dois corpos
os lança a cada lado
dois corpos são as margens da fúria
que corre no meio
como uma torrente de vidros quebrados, um estrondo
cresce a fúria, crescem as pontas da fúria
seus vidros
furando as bordas, desgarrando
dois corpos opostos para sempre
olhando-se através da corrente
olhando-se olhando-se olhando-se
imaginando
uma ponte
uma
por pequena que seja."

poesia peruana:

"As cartas seqüestradas
[Juan Gonzalo Rose]

Tenho na alma uma varanda em sombras.
A ela diariamente assomo, matutino,
a perguntar se não chegaram cartas;
e quantas vezes
a tristeza celebra no meu rosto
sua óperas de nada.

Uma carta.

Que me escreva uma carta quem me fez
os olhos negros e a letra gótica,
que me escreva uma carta aquela amiga
analfabeta de paixão cristã;
pêssegos de minha terra: que me escrevam,
ventos, os de meu vale: que me escrevam,
e redija uma carta pequenina
minha irmã abecedária e pensativa.

Mortos de minha infância
os que se foram
adormecidos no vapor das flores,
noivas que fugiram
sob um farol dizendo eternidades,
amigos até o vinho torturado:
nenhuma carta para Juan Gonzalo?

Se não fosse poeta, ex-presidiário,
estrangeiro até o máximo da graça,
descobridor de noturnas ruas,
colecionador de nomes pálidos:
quisera ser o carteiro dos tristes
para que eles bendissessem meus sapatos.

O dia em que eu morrer (em uma pedra?);
ou navegar (em uma cama?)
arranquem-me a camisa e no meu peito
- mãos sobreviventes que me amaram! -
enterrem uma carta."

sábado, 16 de abril de 2011

Rathdrum


escondidos ao ar livre
permaneceremos sempre
felizes de nuvem, cumulocirrus

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Asentados

Nuestro banco es silencio.

El silencio es nuestro.

Rarezas escondidas

más bellas que nuestras heridas.

Para mi, nosotros

el más hermoso edificio.


[Yiny, 7/4/2011]



terça-feira, 22 de março de 2011

Poema "cursi" para Virginia escrito de improviso sobre a letra "i"

yo no sé si quedarme sin recuerdos de vos es quedarme sin vos/

la memoria se levanta a las 6 de la mañana y se pone a trabajar/

viene del sueño y labra el sueño/

donde soñé que me soñabas/ húmeda

[Juan Gelman]



seu nome conjura o som mais puro

a limpeza da chuva fina com o brilho da ametista


sóbria, suas letras formam

a escrita sobre a qual me dispo

me encontro e digo sempre sim

sim, sou um esboço de Klee


seu nome é mais que a prosa do raciocínio

acumula com esta e com a integridade de um desenho em linha contínua

as loucuras do infinito da beleza de estarmos vivos


e juntos, porque isso

seu nome e o que traz de si

e aquilo de que preciso formam as partes unidas

sem as quais o amor não faz nenhum sentido


e incansavelmente

com a constância de algum mecanismo impossível

insisto e me chamo seu nome

para que me encante

os sonhos, me desfaçam as sombras

e para que pelo menos entre os dentes

e sobre a minha língua você esteja assim

um pouco mais perto de mim... "Virginia".


[Roma, 13/3/11, 16h32]

segunda-feira, 14 de março de 2011

El paso del sol

que venga
la lejanía
cruda crear
con sus hechizos
la ilusión desnuda
de que fuimos yo y tu
cierta vez lo mismo.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Lupe

you give me an orchid
mistery of being
ready for the springs

domingo, 6 de março de 2011

Virgí

Huelen a coco, locos
naranjos de Sevilla...

Lloré y no sé si fue
la lluvia tu nombre como una ciudad de un libro de Calvino
o la simple inocente y cursi certeza de ser feliz
que me pusierón así triste
en el paisaje de un autobús.

sexta-feira, 4 de março de 2011

[terminal]


william wray 
still bird, 2008 
oil on linen - 5x7



[voláteis

anos andando no mato,
nunca vi um passarinho morto,
como vi um passarinho nato.

onde acabam esses vôos?
dissolvem-se no ar, na brisa, no ato?
são solúveis em água ou em vinho?
quem sabe, uma doença dos olhos.
ou serão eternos os passarinhos?

paulo leminski]


pa[í]ra um pássaro


conserta a asa,
apruma o peito.
não ousa canto,
não acha quinas,
vai sem bando, sem rumos ou rimas.
do lépido ao intrépido.
numa reta sem rota, uma memória páira:
[adjacências]
panorâmica finda da vida.
última voada
[ida]
aterrisando exausto e satisfeito
[não sem dor]
o corpo morto,
não torto,
leve e confluente
de um pesar que nem mais sente.

consente:pára em repouso
um ninho sem fim.

quinta-feira, 3 de março de 2011

terça-feira, 1 de março de 2011

L'aventurier

em meu aquário pousam

ostentações de vossa mercê


Prague, Lisbon, Paris

sombras

do que não pude ver


domingo, 27 de fevereiro de 2011

Batismo

no tempo das coisas simples
eu vim
sentir o prazer antigo
daquilo que existe sob a superfície da vida
alerta e sem adjetivos

[Sonja Sekula; Amies, 1963]

sábado, 19 de fevereiro de 2011

[guts]


a discipline of doves
black orchids on his cupboard...

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Para ela que eu invento escrevendo

A vontade que eu tinha
Era sacudir o colega de trabalho

E contar

Palavra por palavra
O que tínhamos conversado

Queria abrir a janela
E ao ver o advogado

Debruçado

Fumando no andar
De baixo

Correr pelas escadas
Sentar à sua porta

E contar
Calmamente

Que nos falamos
Novamente

E você
Aparentemente

Me amava

E amava mais
A cada palavra

Tive vontade de sair
E obrigar o guardador de carros

O único que conheço
Que tem um Astra vermelho

A sentar no banco ao lado

E ouvir
Nossa história

Até que
Emocionado

Limpasse os olhos
Com sua flanela

Ao ver que você
Batera à porta

E assim me trazia de volta

Quis que o senhor
De olhar perdido
No sinal fechado

Desligasse o carro
E me ouvisse

E que ele
Nunca mais ficasse triste

Queria que o porteiro de casa
Largasse a mangueira

Ou tocasse água para cima
Como em um desses comercias de margarina

Porque lembramos
De ter uma família

Queria que minha vizinha de porta
Chamasse o marido

Que foi embora

Para que eles me dissessem
O quanto entendiam

Como era raro
E bonito

Mesmo sendo
Impossível

Lullaby

in the midst of your dreams
two or three swift-flying
songbirds



in the mist of those clean
preludes for a dream
there's a breeze we can feel
for she sings Les jardins sous la pluie
in a letter to her little shepherd, Joaquim

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

De verdade

(Sobre o documentário "Terra Deu, Terra Come".)

Seu Pedro é um velho matreiro. Ele jura que viu, ouviu e viveu histórias fantásticas em Quartel do Indaiá, distrito rural de Diamantina. E não se acanha em compartilhá-las conosco enquanto prepara o funeral de João Batista, o compadre que teria vivido 120 ou 180 anos, não se sabe bem.

Seu Pedro é um matuto. Vive no campo e não tem instrução formal. É dado a completar com imaginação as partes da história que a memória não quer (ou não sabe) narrar. Guarda lembranças da época em que, no riacho, enchia a mão de diamantes, “que nem canjicas”. E sabe coisas “de veras”.

Sabe bonitas cantorias meio cristãs, meio africanas. Sabe que as almas vagam entre nós porque é difícil entrar no Céu. Sabe como e por que Deus encarregou a morte de matar. Mas, principalmente, sabe como tratar e destratar com o diabo na noite de São João.

Dos 14 filhos de seu Pedro, os que vingaram sabem pouco ou nada disso. Muito provavelmente, nenhum deles cantará no velório do pai. Acostumados com o rádio, eles não demonstram interesse em aprender feitiçarias. Ao contrário, parecem constrangidos com a desinibição do homem diante da equipe de documentaristas vindos da cidade grande.

Mas seu Pedro não sabe que o destino anuncia para ele um fim parecido com o de outro célebre matuto: seu Ribeiro. O personagem de Graciliano Ramos, antes respeitado e admirado por saber contar às crianças histórias de santos, acabou infeliz e envergonhado quando chegou à vila o médico que não acreditava neles. Terminou dando a impressão de ter ficado com as pernas “debaixo de um automóvel” por não ter andado mais depressa.

As câmeras sabem disso, mas preferem deixar de lado as ideias preconcebidas que a gente da cidade grande traz. Registram compreensivamente a beleza que há naquela vida – porque há beleza em qualquer vida. Mais que isso, deixam-se enganar pelo ardil de seu Pedro.

É a opção recomendada pelas modernas escolas de cinema e, no caso, funciona muito bem. Mas, como qualquer escolha, tem um custo. Quem olha para o mundo só em busca de beleza acaba justificando as coisas como são. E isso pode ser cruel e condescendente.

O documentário é bom, o que é um diabo. Faz esquecer que, quando os letreiros sobem, a vida continua. Para alguns, nos charmosos cineclubes das grandes cidades. Para seu Pedro, no abandono de Quartel de Indaiá. Pura matreirice, afinal.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Lea


sua lembrança me abre
uma orquídea na alma
ferida de morte
na carne













[Louis le Brocquy, Young Woman, 1957]

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Sourire

Linhas tortas
curvas mortas
águas turvas
sortes todas


Noite linda de quem viu o sol nascer.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Dublin, almost spring

dias lentos, chuva imensa
acorde grego em Debussy

[Elizabeth Magill: Grayscale (2), 2005]

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

suave coisa

"a manhã nos obriga
a chorar
sempre

esquecer
a tosse noturna do filho

a urgência
do amor

o verbo
nosso pai
o silencio
nosso filho

nosso rito diário
de esquecer"

[Mariana Botelho, daqui]

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Do sal

Eu sorri para o horizonte
entorpecida de luz
e voos de andorinhas no verão.
Onda e areia de praia,
sal no corpo e no vento.
A maresia corroeu meus pensamentos,
O coração flutuante em espuma branca.
Eu sorri para as curvas dos corpos
e o ritmo dos barcos.

Quando voltei para a serra
não havia mais amor ou morte.
Trouxe a alma limpa,
tão plena e livre quanto jamais fui.
Estão em mim os horizontes e as luzes,
estão em mim as ondas e os mares.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Dublin winter

imagem suspensa na neblina
cisne frio, meio-dia

[Mist, by Paul Seawright; Hugh Lane Gallery]

sábado, 15 de janeiro de 2011

Brina

sou dentro do céu
brilho que o sol
neblina...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

{branco}

dentro da neblina
agora também sou
o céu.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Quem tem fogo no corpo

"Pra quem é bem chegado, Saravá /Pra quem chega cansado, Oxalá/ Água de beber, beberá/ Que nem água de coco/(...)/ Pra quem gosta do vento, ventará/ Pra quem gosta de chuva, choverá/ Pra quem gosta de lua, luará/ Pra quem quer dia claro, o sol virá/(...)/ E quem gosta de vida, viverá/ E quem anda depressa, chegará/ Quem precisa de santo, rezará/ Quem tem fogo no corpo, pecará/(...)/ Como é bom viver junto com você!"



É um trecho da música "Água de Coco", do Emílio Santiago. Não gosto dessa música (acho bobinha... :P), mas essa parte da letra é bonita e boa para desejar a vocês o que for de melhor e lindo e bom em 2011.

Como é bom viver com vocês! :-)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

{umidades}





1.
o clarão
a chuva
e o cheiro de terra
e folhas
(pisadas)
em mim
(úmida)
quando me caem
seus olhos.

* Petrichor - do grego "petros" (pedra) + "ichor" (o fluido que escorre nas veias dos deuses gregos).

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

{rastros}


[Tela de Christopher Brennan, “Sun on an Empty Chair”]


Tire de mim esta fotografia, só com os olhos, a memória, e as mãos segurando o vazio. Tire-a de mim. Esta fotografia em que meus olhos não me levam, aqui onde sou eu que carrego meus olhos, como lagos onde a água jamais é trocada: é uma água intacta. Derrame o mar em meus olhos. Misture o salgado no doce. Quero uma fotografia exatamente assim: dois lagos, o mar escorrendo por cima, e um sol lá longe. E nela sou eu quem carrega os lagos. Como um fardo. Como um marinheiro que luta contra a fúria das ondas, e a elas sobrepõe o seu grito, porque mais alta que o alto-mar é a sua raiva, e o seu choro, e contra o mar ele fecha as escotilhas, e parte as ondas como quem quebra um espelho.

Tire de mim esta fotografia como um espelho, com os olhos partindo-me: eu carregando dois lagos que você despedaça com os olhos, a memória, e as mãos de onde pende o vazio, e então esse vidro em pedaços me escorre pelo rosto, e no meu rosto o sol se quebra sobre os vidros, e esse colorido que você vê agora na fotografia (não se engane) é apenas um fenômeno óptico. E nada disso se percebe na menina da foto.

Porque na foto não há ninguém. É você quem a desenha com luz e contraste. Você tira com os olhos uma fotografia que vai se embaçar na sua memória. Até virar uma fotografia inventada. Até você não se lembrar mais se havia mesmo uma janela, se estava aberta, se a cadeira estava no centro, se alguém sorria, ou se a menina já tinha ido embora. Se você estava alegre.

Eu quero uma fotografia assim: inventada. Para se esquecer. Ou desenhar por cima. Desenhar sobre a cadeira vazia uma menina que já não está. E derramar no seu rosto um riso. Pintar um mar nos olhos, deixar a tinta escorrer, formar um sulco. Até você não saber mais se era uma velha ou uma menina. Veja bem: a sala está vazia, eu não estou aqui, e o colorido é pura refração. E você não está segurando uma máquina fotográfica.

Mas repare: mesmo inventada, na fotografia nossos corpos colidem, e repartimos o vidro dos meus olhos, e bem perto escutamos o barulho da arrebentação. Veja bem: estamos cercados de prédios, e atrás dos prédios montanhas, e depois céu. E o céu está sujo. E o colorido é o mar que derramei sobre a fotografia, e esse mar já secou, e você só tem essa lembrança esgarçada da cor que havia. E o vidro que rasga os seus olhos é invisível.

Mesmo assim, você tira de mim essa fotografia, e tira-me exatamente agora, sem piscar. Aqui há apenas uma cadeira vazia, eu já me ergui da cadeira, já abri a porta, a porta fechou-se atrás de mim, e a cadeira ficou do outro lado de nós, e pela porta entrou uma velha muito parecida comigo. Mas veja só, atrás das lentes, há alguma coisa invisível para as pessoas que são fora de nós, e que não estiveram naquele quarto, e que nunca poderão ver a fotografia que você nunca tirou. Repare bem, está ali, registrado e intacto: nós enchemos o quarto de alto-mar.



* Fotografia: φως [fós] (“luz”), e γραφις [grafis] (“pincel”). Desenhar com luz e contraste.

** Texto-espelho inspirado pelo poema “Encomenda” da Cecília Meireles:

“Encomenda

Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.”

terça-feira, 16 de novembro de 2010

{entrelinhas}

deixe que o silêncio
cubra-nos
feito o mar:
uma boca que deixa
na outra
sob as palavras
o sal.

sábado, 13 de novembro de 2010

{Chovia. Chove.}

Água quente. Era tudo o que Eliane queria. O martírio gélido do corpo molhado de chuva e lama não era algo que ela buscasse, preferia, sim, outras quenturas em se falando de água. Pelo menos naquele então. Queria a água de seu chuveiro queimando sua pele e adormecendo seu corpo. Ou então, água saindo de seus poros e escorrendo lânguida por um corpo outro, do seu já em dormência. Queria mesmo os líquidos efusivos de sua intimidade viscosamente impregnando o ambiente em brasa, saindo de seu corpo dormente e incrustando-se em outro corpo. Como alternativa não havia, foi-se ao seu banheiro.

A noite estava como toda noite chuvosa: plena. Noite em que dormita a vida e tudo parece estar acompanhado de um solo de guitarra crua. Plenamente noite e não dia vivido às altas horas da madrugada.

Seu corpo nu tremia. Era um frio que se espalhava e a abraçava. Envolvia, quase em braços, seu corpo e lhe arrepiava toda a pele, ouriçando ainda mais seu estado de espírito e desejando que os outros dois quereres que lhe percorriam a mente fossem mais do que feitos, fossem plenos.

O banheiro em seu pálido semblante entrava em contradição com a proposição do que lhe cobria: azulejos. Não eram azuis. Eram brancos. Uma impressão hospitalar que a repugnava lhe pedia para a apagar a luz, foi o que ela fez. O rádio ligado em uma FM qualquer conduzia aquela música triste, desesperançosa, antítese do verde, ou algo verde musgo iluminado pela Lua. Era um Tom que lhe dizia coisas Demais, um blues angélico que queria decair a noite plena inteira sobre suas costas. Ela queria calor.

A água do chuveiro caía devagar sobre seu corpo. Parecia que a simples trajetória entre o chuveiro e seu corpo era uma eternidade para a água que ansiava por manter a noite plena sobre Eliane. Ela relutava em crer que esse ímpeto de noite plena fosse se consumir realmente, continuava seu banho.

Lentamente, seu corpo relaxava.

Corpo. Palavra bonita, pensava Eliane. Corpo combinava com seu corpo. Seu corpo parecia realmente um corpo. Incorporava-se na palavra e esta ganhava corporeidade em seu corpo. Suas estrias, suas gorduras, suas celulites. Tudo corpo, tudo ela. Sentir o corpo com seu corpo, parecia algo plausível. O breu instalado no banheiro envolvia seu corpo, e este ganhava mais materialidade.

Água. Sentir. Corpo. Quente. Noite. Som. Querer.

Um corpo bastaria a si?

Lentamente, seu corpo percorria seu corpo. Tramas e entranhas. Seu querer era ser corpo. Sentir seu corpo o sendo. Sua mão, sendo seu corpo também, volvia e envolvia sua pele. Sua mão era pele também. A água quente dava mais ciência de si. Uma perna fora da água e a sensação de existir, a água caindo sobre os cabelos e a impressão de ser. A mão tocando o corpo em água quente e aquecendo mais a existência. Existir pode ser prazer também e que Buda se cale.

Eliane, em seu nirvana corpóreo, tinha a dimensão de que ser corpo era tudo o que ela precisava. A lentidão dava lugar ao frêmito e existir parecia depender de sua mão. De seu corpo.

Tudo envolvia: o calor da água, o vapor por todo o banheiro, a escuridão, o som, a plenitude da noite, seu próprio corpo. Tudo ardia.

Lá fora chovia, chove. A noite continuava plena e dormitando todos e todas em suas casas. Só Eliane existia em seu corpo.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

{calmaria}

Dei passos sobre as nuvens e me feriram tal qual areia sob o sol. A chama ardeu-me os pés, e me acompanhou as nervuras, transcendeu a carne e feriu o peito cristalino, arrancou-me as asas. E pura foi a sensação de invadir o céu em profusão e desmontar todo o azul fosforescente dos caminhos do meu pensamento. De lá, vi o arder das cores vivas nos cabelos e nas peles.

Tudo o que arde vem de dentro, estala dentro. Pelos olhos embriagados, um matiz anil mergulha, desnorteado. O infinito na ponta dos dedos, desdobrando-se em oceanos por sobre a cabeça, fazendo chover um vitral sobre os cabelos. Também é celeste a estrela mais fria, mas também ela arde, também ela queima. O ardor, no entanto, passa com o vento. Vê como chega a calmaria? A paz é bem mais cruel na guerra inclemente: é induto da alma.

As letras descobrem significado, e também ardem. Mas nem toda poesia é sincera, assim como nem todo coração. E não importa quantas vezes seus dedos mergulharão as feridas, porque a dor simplesmente passa, teus fluidos secam; ou vem com ela a morte. Meus pés não se firmaram sobre a nuvem, que choveu. E me desfiz em lágrimas violetas, lavando o vermelho sangrento da mágoa sobre a cidade.

{ardor}

[convite para um duelo poético, Pássaros! ;)]


Hoje não quero palavras, nem metáforas: quero cores vivas. Saio na chuva, para que a água se afogue violenta, e que o faça fundo no leito do meu rosto. Para que me toque com sua brutalidade de chuva sobre chão de terra. Toque-me, tempestade, porque há tanto tempo não nos tocam os cabelos, os rostos, os corpos. Há tanto não nos tocam. Não com o violento arder das cores vivas. Então, hoje, para a chuva, faço-me aquarelável, e cubro a rua de vermelhos. A tempestade a derrama em mim, e a rua escorre junto comigo. Embaraçamo-nos, escarlates. Para que nos abracem com água, e com céu, e sol. Para que nos embacem, como um beijo quente sobre a vidraça. Como o vapor do que ferve, e queima as mãos na panela. E deixa cicatriz, feito o talho de um abraço sobre o peito. Um abraço de verdade. Então, para não afogar é que pinto com os dedos, e afundo-me os dedos, com as mãos na tela do peito, para me arrancar da tela, para ser fora dela, para existir, para me lembrar que estou e quero, quero com ardor todas as cores que me ardem, as cores vivas, para que eu me lembre como se toca e abraça, mesmo que seja um abraço de chuva: agora eu me lembro. Porque em mim afoguei minhas mãos. Porque em mim a tinta é mais quente, e quando ela escorre é por dentro, em profusão. Vermelha.

{ Aqui: http://julianabrina.tumblr.com/ }

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Sarau de Pássaros (com samba!)

Pessoas queridas,

Está confirmado nosso sarau de poesias, terrorismos poéticos e coisas afins, dia 20/11 (sábado), às 20h, no bar Estabelecimento (R. Monte Alegre, nº 160, Serra - BH). Aqui: http://www.barestabelecimento.com/

Desta vez, o sarau será temático. Vocês podem sugerir temas aqui, e vamos sorteá-los no sarau.

Soltem seus pássaros!

:)

Beijos,
Ju

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

{travessia}

Eu te amo. E o meu amor não tem importância alguma. Ele não desloca nenhum pássaro, flor, folha, galho, nenhuma massa de ar. É imperceptível. Ninguém me sente o coração batendo. É apenas uma paisagem interna. Meu amor é algo que atravesso. Não quero que ele um dia cristalize. Nem que se transforme em tristeza. Ou se torne amargo. Por isso, eu o atravesso. Continuo a atravessá-lo. Eu me atravesso a mim. Como quem desaparece dentro da chuva, ou na claridade bruta. Com vento de tempestade dentro. Arrancando todas as folhas. Com o ruído agudo que se escuta quando um leão beija com cuidado um pássaro caído, para não machucá-lo: eu te amo. Eu resvalo por esse lugar perigoso: o meu amor. A todo momento, essa mulher que me atravessa precisa de se lembrar de si, e de mim, e da paisagem inteira, e percorrê-la de volta, sem provisões e sem mapa. Para que seu amor finalmente se explique, e revele a substância de que é feito: a menina que fui, o céu azul, o sol intenso, e tudo que então brilhava, os bichos, o quintal da avó, o pé de romã, o branco, o limpo, o simples, e meu coração. Meu coração que não tem importância alguma. É só uma pequena parte de todo o amor que você ainda vai receber da vida, das pessoas, talvez de um céu claro de tarde, apenas uma pequena parte de todo amor que você vai receber escondido, gratuito, e secreto, ou gritado, e duramente arrancado, da vida. Mas é tudo que tenho, meu coração branco e limpo, e pulsando. É com ele, e dentro, e invisível, que eu te amo. É tudo que tenho para você, para te fazer alegre com meu coração batendo, e com meu coração te guardar da noite ou dos perigos. É ínfimo e íntimo, imperceptível como um vento nos galhos, ou um acariciar de asa no vazio: o meu coração, com o amor batendo.


{ Aqui: http://julianabrina.tumblr.com/ }

domingo, 7 de novembro de 2010

Cri$e

quando mesmo o real
é apenas virtual
quando um dólar
não tem valor
quando bancos
centros do mundo
se deslocam no tempo
na ânsia por todo espaço
quando o lastro
é apenas um rastro
de algo que já houve
quando toda cifra
não existe no mundo
palpável
quando ouro é
todo o outro real
quando prata já
não se encontra
quando o bolo infla
mais do que as bocas
existentes e ainda
assim não alimenta

talvez

provavelmente talvez

seja a hora de
trocar as coisas
pelas próprias coisas

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

origami

faço vincos,
te finco as unhas,
lambo dobras.

divido.
partida, dobro-me.

[a matemática impossível da minha geometria
me projetando sob seus planos]

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

kirigami

recorto a fina folha
em flor orvalhada

rasgo, entalho, lagrimo

vermelha,
sangra por entre suas frestas

[não era a flor]

era a pura dor distraindo a solidão

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

(eu, ele, nós, os dois, ambos)


o amor é uma casa clara luminosa clara brilhando clara que aquece puro o e que nos dá um chão
o amor chove e faz sol e venta leve ou delicado e quanto venta fúria é pra espantar os mortos,
pra nos livrar dos corpos e da lembrança ruim que carregamos junto e que nos pesa a alma e nos ocupa as mãos

eu preciso,
(eu, nós, os dois, ambos
)
eu preciso das mãos livres, do peito aberto, do olhar limpo
- do olhar não distraído nunca -
precisamos nós os dois ambos
da porta aberta e das janelas idem de par em par
precisamos de uma não-vergonha e das palavras exatas e é necessário
- absolutamente necessário -
que a vigília do sono do outro nos provoque um sorriso de onde nascerão sonhos doces e bons e
é numa vigília eterna que repito assim como um voto de entrega que

que eu te amo, Julio

eu te amo despida e sem cobertas, eu te amo com a luz acesa e as janelas abertas escancarado o peito, eu te amo, Julio, eu amo suas mãos e seus pés e seu peito onde descanso as feridas, onde descanso
das feridas e confesso passos em falso e quedas e escoriações e eu amo, Julio, eu amo minhas pernas embaraçadas nas suas pernas no seu corpo pela manhã, à noite, à tarde, madrugada e tudo e todos os tempos e contrapontos e rápido ou devagar, eu te amo, Julio, com a lentidão de quem tece cuidadosamente a melhor história e aquele definitivo encontro que sonhei sem esperança ou lastro eu

eu te amo, Julio

com o dorso a boca e o ventre
de quem quase morreu
de quem quase o abismo, amo
nunca mais cega
nunca mais solta porque eu escolhi, Julio
a casa clara luminosa clara que me abriga clara que me faz chão
a casa que é o seu corpo
a casa que são os seus olhos
a casa melodia de todas as horas da sua voz
a casa que são seus lábios me procurando inteira
e que eu aceito plena

porque é onde eu decidi ficar.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Um pouco de poesia francesa

Assisti recentemente aqui em Paris o ator Jean-Louis Trintignant recitando “Três poetas libertários: Vian, Prévert e Desnos” e queria compartilhar com vocês.
Esse ator fez filmes clássicos, como o fenomenal “O conformista” (do Bernardo Bertolucci), “Um homem, uma mulher” (de Claude Lelouch), sem contar “E Deus criou a mulher” (com Brigitte Bardot), “A Fraternidade é Vermelha” e “Z” (do Costa-Gravas).
Hoje o Trintignant é um senhor de idade, mas com uma clareza na voz e um jeito singelo de transmitir as emoções da poesia. Fiquei encantada.
Já conhecia algo da obra do Boris Vian e do Prévert. Transcrevo abaixo as duas últimas poesias recitadas, de Boris Vian, mas preparem-se, pois é de arrasar.

Je mourrai d’un cancer à la colonne vertébrale
(Boris Vian)

Je mourrai d’un cancer à la colonne vertébrale
Ce sera par un soir horrible
Clair chaud parfumé sensuel
Je mourrai d’un pourrissement
De certaines cellules peu connues
Je mourrai d’une jambe arrachée
Par un rat géant jailli d’un trou géant
Je mourrai d’un éclat de voix
Crevant mes oreilles
Je mourrai de blessures sourdes
Infligées à deux heures du matin
Par des tueurs indécis et chauves
Je mourrai sans m’apercevoir
Que je meurs je mourrai
Enseveli sous les ruines sèches
De mille mètres de coton écroulé
Je mourrai nu ou vêtu de toile rouge
Ou cousu dans un sac avec des lames de rasoir
Je mourrai peut-être sans m’en faire
Du vernis à ongles aux doigts de pied
Et des larmes plein les mains
Je mourrai de voir torturer des enfants
Et des hommes étonnés et blêmes
Je mourrai rongé vivant
Par des vers je mourrai les
Mains attachés sous une cascade
Je mourrai un peu beaucoup
Sans passion mais avec intérêt
Et quand tout sera fini,
Je mourrai.

Morrerei de um câncer na coluna vertebral
(Boris Vian - tradução de Ruy Proença)

Morrerei de um câncer na coluna vertebral
Será numa noite horrível
Clara, quente, perfumada, sensual
Morrerei de um apodrecimento
De certas células pouco conhecidas
Morrerei de uma perna arrancada
Por um rato gigante surgido de um buraco gigante
Morrerei de cem cortes
O céu terá desabado sobre mim
Estilhaçando-se como um vidro espesso
Morrerei de uma explosão de voz
Perfurando minhas orelhas
Morrerei de feridas silenciosas
Inflingidas às duas da madrugada
Por assassinos indecisos e calvos
Morrerei sem perceber
Que morro, morrerei
Sepultado sob as ruínas secas
De mil metros de algodão tombado
Morrerei afogado em óleo de cárter
Espezinhado por imbecis indiferentes
E, logo a seguir, por imbecis diferentes
Morrerei nu, ou vestido com tecido vermelho
Ou costurado num saco com lâminas de barbear
Morrerei, quem sabe, sem me importar
Com o esmalte nos dedos do pé
E com as mãos cheias de lágrimas
E com as mãos cheias de lágrimas
Morrerei quando descolarem
Minhas pálpebras sob um sol raivoso
Quando me disserem lentamente
Maldades ao ouvido
Morrerei de ver torturarem crianças
E homens pasmos e pálidos
Morrerei roído vivo
Por vermes, morrerei com as
Mãos amarradas sob uma cascata
Morrerei queimado num incêndio triste
Morrerei um pouco, muito,
Sem paixão, mas com interesse
E quando tudo tiver acabado
Morrerei.

Pourquoi que je vis
(Boris Vian)

Pourquoi que je vis
Pour la jambe jaune
D'une femme blonde
Appuyée au mur
Sous le plein soleil
Pour la voile ronde
D'un pointu du port
Pour l'ombre des stores
Le café glacé
Qu'on boit dans un tube
Pour toucher le sable
Voir le fond de l'eau
Qui devient si bleu
Qui descend si bas
Avec les poissons
Les calmes poissons
Ils paissent le fond
Volent au-dessus
Des algues cheveux
Comme zoizeaux lents
Comme zoizeaux bleus
Pourquoi que je vis
Parce que c'est joli.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Este blog pode se tornar livro!

Ei, gente!
O Pássaros Achados está participando do prêmio Blogbooks e, se escolhido, pode ser publicado! Vocês podem votar no link aí em cima!

Mais informações aqui: http://www.blogbooks.com.br/

:)
Beijos,
Ju

sábado, 4 de setembro de 2010

Terça muito poética

Ei, Pássaros!

Dia 14/09, às 18h30, o Paulo Merçon vai participar do Terças Poéticas no Palácio!
Bora?
:)

Beijos,
Ju

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

index

soletro indignamente teu nome
[desejo]
gaguejo arpejos de timidez
revelia de coragem
ensaio de dono
ex-pe-ri-men-ta-ção

solicito como que ordeno
[tú vens]
palavra
mágica
abracadabra é qualquer segurança dita.

[digo]

domingo, 22 de agosto de 2010

Howth

tudo em seu lugar
margaridas sobre a torre
martelo sobre o mar

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Das lições de vida

A vida é esse exercício
De esperança

O olhar da moça
Refazendo sua força

Intuindo motivos
Para seguir sorrindo

A vida é isso

O dia seguinte
Ao velório
De um filho

A vida é estar aflito
E perdido

Por minutos infinitos

E ver nascer do luto
Um sentido

Mais bonito e profundo
Mesmo no escuro

A vida é a nossa palavra
Desesperada

Tentando aprender
Como se diz adeus

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

análise


este poema, digo, este não-poema começa com o clássico (e digo começo clássico dos meus não-poemas):

o que fazer quando a vida dói, quando o peito quebra além da arrebentação, do mar da praia das ondas, o mar a eterna - nova - metáfora, continua o sal sai o sangue, mas quem precisa do sangue -
o sangue é mais denso que a água (abjeta afirmação), eu gostaria que o meu sangue não fosse o meu sangue, que na minha água corressem veias, digo água porque sou água, a contragosto mas sou, e que nas supostas e desejadas veias corresse livre qualquer coisa que não fosse púrpura que não fosse nada pré-fabricado ou herança, que corresse livre a coisa livre que me faria livre que me faria sã, a coisa chamada liberdade, ou possível, ou escolha, a coisa que não conheço que nunca soube do que se trata e justamente por isso não nomeio, ou dou os vários nomes que me parecem apropriados - e que talvez não sejam aliás muito provavelmente não são - palavras de e num dicionário, ou seja, mortas, ou melhor, na vitrine, e por causa do púrpura e da herança eu conheço - ou melhor, recebi/me ensinaram - muito poucas e outras palavras e que não enumero aqui porque já me dói o suficiente o manejo diário das mesmas, e então penso que talvez por isso eu tenha sido e continue ainda uma leitora voraz de qualquer coisa em que tenham sido grafadas palavras: bons ou maus livros (o que quer que isso seja), panfletos, bulas, jornais (jornais um pouco menos), embalagens, caixas, remetentes de cartas, certificados de garantia, manuais de instrução, anúncios oferecendo massagem profissional (por profissionais do sexo), cartões de visita, outdoors, placas de trânsito, cartazes pregados em postes, mensagens obscenas em paredes de banheiros públicos, santinhos de propaganda política, promessas de resgate da igreja tal no lugar tal reuniões diárias horário tal, depoimentos de ex-viciados recém-convertidos vendendo canetas para financiar a casa de apoio que não tem ajuda do governo, lista de material escolar de crianças de 7 anos que rondam cafés e restaurantes manhã/tarde/noite, cardápios, avisos "por favor não jogue papel no vaso", informações nutricionais em barras de cereais, ímãs de geladeira com propagandas diversas - tudo, definitivamente tudo o que me cai nas mãos ou que a vista alcança, e desde que aprendi a ler qualquer sequência de letras que tenha um significado que eu seja capaz de entender é um alívio, um escudo tímido e muito pouco eficaz (mas não importa, é um escudo) e daí talvez venha a paixão, ou melhor, a motivação histérica para aprender línguas estrangeiras (e isso é puro delírio, claro), porque eu preciso de mais palavras, ou de diferentes formas das mesmas palavras, não é o significado que importa, são as letras enfileiradas, a trincheira, o bunker o abrigo o porão desconhecido jamais visitado ou adivinhado pelos outros, os outros, os mesmos, meu sangue, o cárcere, a longa linhagem de mulheres loucas e pessoas solitárias que não confiam e se retraem, e eu entendo, eu entendo perfeitamente que a loucura foi e ainda é o porão dessas mulheres, o bunker, a trincheira, o abrigo e o escudo tímido, e talvez eu também seja mais uma dessas mulheres loucas, aliás, eu sou, e desde que me entendo por gente tento desesperadamente ignorar este fato e cubro com as mãos as orelhas e grito ou silencio que não, não, não,


(e aqui o velho e previsível golpe de quebrar o parágrafo e seu ritmo alucinante - ou a tentativa de ritmo alucinante)



e deve ter sido nessa época que eu descobri as letras e os livros e os papéis com coisas escritas, e na contramão da estratégia de todas as mulheres loucas da minha família eu escolhi o lado de fora para me trancar, ler não é o meu lado de dentro, ler é a ilha, o longe, o que ninguém vai e sim, como sempre repito, a literatura me perdeu para a vida, mas foi justamente por ela que eu fui, ainda que de maneira débil, capaz de me salvar.


(é curioso este meu hábito/vício de terminar os não-poemas no infinitivo do verbo. é algo que a minha terapeuta vai gostar de saber) - céus, de novo.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Montanhas de Histórias

Ei, Pássaros,

De 30 de julho a 08 de agosto, teremos, em Ouro Preto, o Simpósio Internacional de Contadores de Histórias!

A programação está aqui: http://www.simposiodecontadores.com.br/default.aspx?code=99

Há uma série de oficinas gratuitas também: http://www.simposiodecontadores.com.br/default.aspx?code=100

Farei as oficinas do Enrique Páez (espanhol), sobre técnicas narrativas, e a do Martin Ellrodt (alemão), sobre os espaços de contos!

Espero que vocês animem e participem. E sigam-me os bons! ;)

Beijos,
Ju